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Dias de chuva, memórias de abrigo

Há dias em que a chuva não cai apenas do céu. Ela pesa também dentro da gente.

Aqui em Minas Gerais, estamos vivendo um tempo assim. Chove forte, chove demais, chove com força de ameaça. E, junto com a água, chegam as notícias que apertam o peito: mortes, famílias desalojadas, casas invadidas pela lama, perdas irreparáveis, medo, insegurança, noites em claro. É difícil ver tudo isso sem sentir um tipo de impotência. Difícil assistir, de dentro de casa, ao sofrimento de tanta gente, e seguir o dia como se nada estivesse acontecendo.

Talvez por isso, outro dia, enquanto a chuva batia forte do lado de fora, eu fui tomada por uma lembrança antiga. Uma memória leve, dessas que chegam quase como um cobertor em dia frio. E achei bonito que ela viesse justamente agora, em meio a um cenário tão pesado. Porque às vezes a memória não vem para nos tirar da realidade, mas para nos lembrar daquilo que, em tempos difíceis, continua sendo essencial.

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Lembrei dos dias de chuva da infância.

Não da chuva como tragédia, claro. Mas da chuva como presença. Daquelas tardes em cidade pequena, quando o céu escurecia mais cedo, o vento aumentava, as janelas batiam, e nós, crianças, sentíamos medo. Um medo pequeno, infantil, mas real. Medo do barulho do trovão. Medo do escuro. Medo daquela sensação de que o mundo lá fora estava fora de controle.

E quase sempre a luz acabava.

Hoje isso não acontece com a mesma frequência, mas naquele tempo era comum. Bastava a chuva engrossar um pouco mais e, de repente, a casa inteira mergulhava no escuro. E é curioso como o que poderia aumentar o medo fazia justamente o contrário.

Porque, quando a luz acabava, a família se aproximava.

Quando o escuro juntava todo mundo

Eu me lembro dessa cena com uma nitidez afetiva. Os filhos por perto. Meus pais tentando acalmar. Uma vela acesa aqui, outra ali. O rádio, ajudando a preencher o silêncio. E, muitas vezes, histórias.

Histórias contadas no escuro têm uma força diferente. Talvez porque, sem a distração das luzes, a gente escute melhor. Talvez porque o escuro obrigue a presença. Não havia televisão, celular, internet, notificações chamando para fora do momento. Havia só o barulho da chuva, a respiração da casa e a voz de quem estava ali para nos dizer, sem precisar usar exatamente essas palavras: vai passar, eu estou aqui.

Hoje eu penso que, na infância, a gente nem percebe o tamanho de certas coisas. Só sente.

Sentia medo da chuva, sim. Mas sentia também o alívio de não estar sozinha dentro dele. O que fazia a diferença não era a chuva parar

Essa é a parte que mais me toca quando volto a essa memória: o que transformava a experiência não era a tempestade passar imediatamente. A chuva continuava lá fora. O vento também. O trovão seguia rasgando o céu.

Mas, dentro de casa, havia abrigo.

E abrigo, eu aprendi cedo, nem sempre é só parede, telhado e porta fechada. Abrigo é presença. É voz calma. É colo emocional. É alguém que segura o medo com você até que ele diminua de tamanho.

Talvez seja por isso que a lembrança tenha vindo agora, com tanta força. Porque, ao olhar para o sofrimento de tantas famílias atingidas pelas chuvas, eu pensei justamente nisso: no quanto o ser humano precisa de abrigo quando o mundo desaba um pouco.

A dor dos dias de hoje exige mais do que comoção

Seria injusto romantizar a chuva num momento em que ela tem sido, para tantas pessoas, sinônimo de perda. Há famílias em Minas vivendo um pesadelo real. Não estamos falando de lembranças afetivas apenas, mas de gente que perdeu móveis, documentos, rotina, chão. Gente que dorme sem saber como será o dia seguinte. Gente que precisou sair às pressas, deixando para trás não apenas objetos, mas pedaços da própria história.

Por isso, escrever sobre chuva hoje exige delicadeza. Mas exige também responsabilidade.

A memória da infância me trouxe aconchego. O presente, no entanto, me chama à consciência.

Porque nem toda família, neste momento, tem uma casa segura para se recolher. Nem toda criança está ouvindo a voz tranquila dos pais no escuro. Nem toda mãe ou pai consegue dizer “vai passar” com serenidade quando a água já entrou pela porta, quando o alimento ficou para trás, quando a cama molhou, quando a incerteza ocupou todos os cômodos.

Solidariedade também é forma de abrigo

Diante de tudo isso, a primeira reação costuma ser a tristeza. E ela é legítima. Mas ela não pode ser a última.

Há momentos em que sentir muito precisa se transformar em fazer alguma coisa.

Doar roupas. Doar cobertores. Doar água, alimentos, produtos de higiene. Compartilhar pontos de arrecadação. Perguntar como ajudar. Mobilizar vizinhos, amigos, colegas. Fazer da compaixão um gesto concreto.

A solidariedade, quando sai do discurso e ganha corpo, vira abrigo também.

A gente não consegue interromper a chuva. Mas consegue, sim, diminuir o frio de quem está atravessando a tempestade mais dura.

O que a infância me ensinou sobre cuidado

Quando penso naqueles dias de chuva da minha infância, não penso apenas na água caindo, nem na luz que apagava. Penso no que meus pais nos davam sem grandes discursos: segurança emocional.

Eles não controlavam o tempo. Não tinham como impedir a trovoada. Mas tinham como criar, dentro da casa, uma atmosfera de proteção. E isso bastava para reorganizar o medo.

Hoje, olhando para trás, vejo o quanto esse aprendizado continua atual.

Nem sempre podemos resolver tudo. Nem sempre temos poder sobre aquilo que assusta, ameaça ou destrói. Mas sempre podemos ser presença na vida de alguém. Sempre podemos ser apoio. Sempre podemos escolher não passar ao largo da dor do outro.

Em tempos difíceis, alguém precisa acender a vela

Essa imagem me acompanha: a da vela acesa no escuro.

Pequena, frágil, silenciosa. E, ainda assim, suficiente para mudar a percepção do ambiente inteiro.

Talvez seja isso que somos chamados a fazer quando a realidade pesa demais: ser uma luz possível. Não a solução total. Não a resposta para tudo. Mas a presença que ajuda alguém a atravessar a noite.

Há uma grandeza bonita nas pequenas coisas. Uma cesta básica entregue no lugar certo. Uma mensagem enviada para saber se está tudo bem. Uma campanha organizada no bairro. Um gesto de cuidado sem alarde.

Tudo isso conta.

Tudo isso ilumina.

A chuva continua, mas nós podemos escolher o que fazer com ela

A chuva, às vezes, devolve memórias. Outras vezes, cobra de nós posicionamento.

Hoje, ela faz as duas coisas.

Ela me leva de volta à infância, à casa reunida, ao medo dividido, às histórias contadas no escuro. E, ao mesmo tempo, me lembra que, neste exato momento, há famílias precisando que alguém seja, para elas, essa lembrança viva de acolhimento.

Talvez seja esse o ponto mais humano de tudo: a memória que nos aquece só cumpre seu melhor papel quando nos torna mais sensíveis ao presente.

Que os nossos dias de chuva não sejam apenas motivo de recolhimento, mas também de consciência.

Que a lembrança do abrigo que tivemos nos ensine a oferecer abrigo, de algum modo, a quem agora precisa.

E que, mesmo quando a tempestade parecer grande demais, a gente não se esqueça de uma verdade simples, mas poderosa: o que protege o coração humano nem sempre é o fim da chuva — às vezes, é só a certeza de que ninguém está sozinho enquanto ela cai.

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Lourdes Marinho
Lourdes Marinho
1 mês atrás

Quanta sensibilidade e empatia em um só texto. Revivi as situações sobre chuva e escuro da minha infância. Nunca havia parado para ver esse lado positivo do escuro, pq ainda hj sinto medo dele. Sim, as tragédias causadas pelas chuvas em MG têm me entristecido. Parabéns pelo lindo texto, Claudinha!♥️