Celebramos ontem o Dia das Mães. É um dia que tem um perfume diferente de qualquer outro domingo do ano. Dia em que as flores parecem mais coloridas na feira e o burburinho nos restaurantes ganha um tom de celebração coletiva. Para mim esse dia é um mosaico de sentimentos: é o abraço apertado na minha mãe, o riso da Ana que preenche a casa e, inevitavelmente, o silêncio doce e profundo que a Marcella deixou. Este não é um texto sobre a dor que paralisa, mas sobre a vida que continua carregando, com muito orgulho, a memória de quem nos ensinou a amar sem medidas.
Sentar à mesa no Dia das Mães é um exercício de presença. Enquanto observo as famílias ao redor, vejo o ciclo da vida se repetindo: avós orgulhosas, mães de primeira viagem exaustas, mas radiantes, e filhos que buscam retribuir um pouco de todo o cuidado recebido. Para nós, mães que temos um pedacinho do coração habitando em outro plano, a mesa nunca está vazia. Há um lugar reservado para a lembrança, uma cadeira invisível onde a saudade se acomoda com a naturalidade de quem faz parte da família. Comemorar com a Marcella hoje é saber que ela está bem, em paz, e que o seu legado de aceitação e doçura é o maior presente que eu poderia ostentar.
A vida que pulsa no vão da saudade
Muitas vezes, a sociedade espera que o Dia das Mães seja como um comercial de televisão, feito de cores e sorrisos perfeitos. Mas a maternidade real — e especialmente a maternidade atípica que vivi com tanto zelo — nos ensina que a sensibilidade é a nossa maior força. Celebrar esta data é abraçar a dualidade: é possível ser imensamente grata pela presença vibrante da Ana e, no mesmo segundo, sentir aquele aperto no peito por não poder tocar as mãos da Marcella. A perda não anula a vida; ela a torna mais profunda, mais urgente.
A saudade que apertou um pouco mais no último domingo não é uma inimiga. Ela é, na verdade, a prova viva de que o amor não conhece fronteiras geográficas ou temporais. Quando olho para a minha trajetória, vejo que as palavras sempre foram minhas aliadas, mas o que aprendi com minhas filhas vai além de qualquer editorial ou livro que eu já tenha escrito. Aprendi que o “instante” é o nosso bem mais precioso. E hoje, meu instante favorito é este: reconhecer que sou mãe de duas meninas extraordinárias, uma que caminha ao meu lado e outra que ilumina meus pensamentos.
Honrando a história que nos trouxe até aqui
Ao lembrar do Dia das Mães meu convite é para que olhemos para nossas histórias com gentileza. Todas nós carregamos marcas, vitórias e ausências. O segredo para uma vida plena, como tento transmitir aqui no Colecionando Instantes, não é fingir que a perda não existe, mas integrá-la à nossa narrativa com amor. Os filhos que partiram continuam sendo nossos filhos; eles continuam moldando quem somos, como vemos o mundo e como cuidamos uns dos outros.
Que possamos celebrar a vida em todas as suas formas: a vida que corre pela casa, a vida que honramos na memória e a vida que ainda temos pela frente. Ser mãe é um compromisso eterno com a esperança. E, mesmo com os olhos por vezes marejados, meu coração transborda gratidão por cada capítulo dessa jornada. Desejo um feliz dia das mães todos os dias, para quem abraça com os braços e para quem, como eu, também aprendeu a abraçar com a alma.
PS: Eu sinto uma saudade doce da minha Marcella. Aquela dor que dilacera, felizmente, cedeu lugar ao conforto de saber que minha filha sempre viverá em mim. Pra você que perdeu alguém muito próximo, deixo aqui um pequeno texto com 5 formas de lidar com a perda e honrar a memória de quem partiu. Faz sentido pra mim, pode fazer pra você também.