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A geografia do afeto: quatro anos de uma saudade serena

O tempo é um mestre de passos silenciosos. Se me perguntassem, há quatro anos, como seria chegar até aqui, eu provavelmente não teria palavras. Naquele junho de 2022, a dor era lancinante,  um grito mudo que ocupava todos os espaços da casa e do peito. Era uma dor que não pedia licença, que cegava e tirava o fôlego.

A transição para a dor serena

Hoje, completando quatro anos de ausência física da minha Marcella, percebo que a dor não foi embora, mas ela mudou de lugar. Ela se transformou no que eu aprendi a chamar de dor serena.

A dor serena não é falta de amor; pelo contrário, é o amor que encontrou uma forma de repousar. Ela não dilacera mais; ela acompanha. É aquela saudade que surge no meio de um café, num raio de sol que entra pela janela ou no silêncio de uma tarde de domingo. Dói menos com tristeza e muito mais com uma gratidão profunda por tudo o que vivemos.

Lições de resiliência sem palavras

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Muitas vezes, a sociedade mede o valor de uma vida pelas conquistas externas: diplomas, carreiras, viagens. Minha Marcella nunca frequentou a escola. Suas limitações físicas eram imensas, mas sua capacidade de ensinar era ainda maior. Ela foi a pessoa que mais me ensinou na vida.

Sem dizer uma única palavra, ela me deu as lições mais valiosas de resiliência, de coragem e, acima de tudo, da pureza do amor que não espera nada em troca. Cuidar dela foi a missão mais desafiadora e o presente mais extraordinário da minha vida.

Um recado para outras mães (atípicas ou não)

Para você que também carrega esse vazio que o mundo insiste em dizer que o tempo cura: o tempo não cura, ele acomoda. Ele nos ensina a caminhar com a falta, transformando o “porquê” em “obrigada por ter existido”.

A Marcella não precisou de livros para me ensinar a ler o mundo com o coração. E hoje, quatro anos depois, sinto que ela continua sendo minha bússola, guiando meus passos para que eu continue colecionando instantes, agora com a serenidade de quem sabe que o amor, quando é verdadeiro, nunca conhece a palavra adeus.

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