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Casa de vó: Lugar de afeto, vida e amor

Desde que me entendo por gente, as figuras das minhas avós sempre foram pilares de afeto e segurança na minha vida. Tive a sorte de ter ambas presentes e atuantes, cada uma à sua maneira, moldando a criança e a mulher que me tornei. Minha história pessoal começa na pequena Virgem da Lapa, a cidade da minha avó materna, onde nasci e vivi com minha família até completar seis anos de idade. Minhas primeiras lembranças são impregnadas dos cheiros e sons daquele lugar, e, inevitavelmente, da presença dela. Depois, por uma feliz reviravolta do destino, nos mudamos para Minas Novas, uma cidade aconchegante, que tinha uma vantagem estratégica crucial: ela ficava próxima de onde as duas avós moravam. Meu pai, que na época foi transferido no trabalho, fez questão de escolher um lugar que não nos afastasse tanto das nossas raízes familiares, garantindo que ficássemos no caminho entre as duas avós. Era como se a providência soubesse que a proximidade com essas matriarcas seria fundamental para a nossa formação.

A importância da minha vó nas nossas vidas

Honro profundamente as duas, minhas avós, mas neste post, em particular, quero abrir meu coração e minhas memórias para falar da minha vó materna, a inesquecível Vó Isabel, e de tudo o que a sua casa representou e ainda representa para mim. Uma casa que não era apenas um espaço físico, mas um universo de experiências, aprendizados e de um amor que se manifestava de formas muito peculiares. Vó Isabel era, para mim, uma mulher de presença marcante. Quando eu era criança, eu a descreveria como “gordinha”. Hoje, com a maturidade e uma percepção mais apurada das formas e dos corpos, eu não a vejo exatamente assim. Ela era, na verdade, barriguda, e isso, de alguma forma, fazia ela parecer maior, mais imponente, mais… Gorda.

Uma identidade que se carregava com orgulho

E não, leitor, não sou gordofóbica. Nem um pouco! É que essa condição física, ou melhor, essa característica particular, identificava demais a minha vó, tornando-se, curiosamente, parte de seu nome. Hoje, em um mundo que valoriza a correção política e a eliminação de termos potencialmente ofensivos, esse apelido pode ser visto como muito preconceituoso. Mas, na época e no contexto do interior de Minas Gerais, era uma forma de identificação, uma marca. Todos na cidade a conheciam por “Isabel Gorda”.

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No interior de Minas, temos o hábito, que beira quase um ritual social, de conhecer as pessoas ao saber quem são seus pais. É a famosa frase, dita em bom mineirês e com um sotaque carregado de curiosidade e familiaridade: “Cê é fi di quem?”. Essa pergunta, para nós, mineiros, é muito mais do que um simples inquérito genealógico; ela busca a raiz, a conexão, a história familiar que te define. Então, comigo e com meus irmãos, a cena se repetia invariavelmente, quase um mantra: “Você é filha de quem?” “De dona Nelina.” E a resposta vinha, imediata, com a ponta da língua e a curiosidade saciada: “Nelina de Isabel Gorda?”. E eu, sem qualquer sombra de constrangimento ou vergonha, sempre respondi a essa pergunta com um orgulho imenso de minha avó. Porque ela não era apenas a “Gorda”; ela era uma senhora muito, muito vaidosa. Uma mulher que, apesar do trabalho árduo, jamais deixava de se arrumar. Usava roupas bonitas, em cores vivas e vibrantes, que contrastavam com a simplicidade do ambiente do interior. E jamais saía sem batom. O batom era seu selo de identidade, seu escudo de vaidade, sua assinatura.

Coragem, alegria e a essência de uma mulher à frente do tempo

Mais do que vaidosa, Vó Isabel era uma mulher de muita coragem. Enfrentou a vida com uma leveza que mascarava sua força. Era alegre, com um riso fácil e contagiante, capaz de iluminar qualquer ambiente. E, acima de tudo, independente e forte. Uma mulher que tomava as rédeas da própria vida e da própria casa, em uma época e em um lugar onde a figura feminina ainda era predominantemente relegada a papéis mais passivos. Ela era uma força da natureza, uma matriarca que liderava pelo exemplo, pela presença e pela sua capacidade de acolher a todos que batiam à sua porta. Sua figura, imponente e carinhosa, inspirava respeito e amor na mesma medida.

O lar que era um mundo

A casa de Vó Isabel não era apenas um lar; era um universo em si, uma das doces lembranças mais vívidas e complexas da minha infância. Lembro-me pouco do período em que morávamos na mesma cidade, Virgem da Lapa. Sei apenas que era só atravessar a rua e lá estava eu e meus irmãos, diariamente, invadindo seu espaço com a energia da infância, encontrando o refúgio e o acolhimento que só a casa da avó pode oferecer. Após nossa mudança para Minas Novas, a casa de vó se transformou no destino mais aguardado de todas as férias, em julho e dezembro. Era para lá que corríamos, com as malas recheadas de expectativas e os corações cheios de saudade e antecipação.

E um lar compartilhado

Devo ir logo dizendo que não era uma casa só nossa, da família. Longe disso! Era de muita gente. Vó Isabel, com sua coragem empreendedora, tinha uma pensão em casa, a famosa Pensão Globo. Um nome que hoje parece remeter a outra época, a um outro Brasil. Logo na entrada, a casa revelava sua dinâmica: um corredor espaçoso com os quartos destinados aos hóspedes. E acabava aí a privacidade, ou pelo menos a privacidade que a gente idealizaria hoje. O banheiro era único, compartilhado por todos. A sala de TV, onde os poucos programas da época se tornavam eventos, e a sala de jantar, onde as refeições eram sempre um banquete e um ponto de encontro, também eram espaços comuns.

Nós, da família, dormíamos na parte que ficava depois da sala, em quartos que se misturavam aos outros de hóspedes, formando um labirinto de portas e histórias. Mais à frente, a cozinha, o coração da casa, de onde emanavam cheiros irresistíveis, e a sala de jantar. E descendo a escada que ia para o quintal, um quintal vasto e cheio de vida, ficava o banheiro, um espaço de uso comum e constante.

O convívio que educava e a paixão por histórias que nasceu ali

Com exceção do sono, todas as outras atividades cotidianas eram feitas junto aos hóspedes. Lembro-me vividamente de assistir à Copa do Mundo de 1982 naquela sala, rodeada por eles, todos homens – engenheiros, viajantes, representantes comerciais, muitos deles “aventureiros” da vida. Tinha gente de todo lugar, com os mais diversos sotaques e histórias para contar, de cantos remotos do Brasil. Eu, criança, adorava conversar com os hóspedes. Eles eram um portal para um mundo que eu ainda não conhecia, trazendo relatos de vida, de trabalho, de viagens que expandiam minha pequena perspectiva. Talvez venha exatamente dessa fase a minha paixão por também contar histórias. A gente interagia tanto com aquelas pessoas, que parecia que eram da família. Eram as suas famílias temporárias, que se instalavam por um tempo e, por mais breve que fosse, deixavam suas marcas.

A familiaridade era tanta que eu e meus irmãos até pegávamos carona com um deles, que era representante comercial e ia sempre a Minas Novas. Era carona de ida, rumo à nossa casa, e, às vezes, de volta para a casa de vó. Ele era quase um tio postiço, um anjo da guarda sobre rodas, que garantia que a distância não fosse um problema para os nossos encontros com a família. Essa interação com o “mundo lá fora”, mediada pela segurança da casa de vó, foi um aprendizado inestimável sobre a diversidade humana e a beleza das conexões.

Aromas, sabores e sonoridades da infância: a casa que alimentava a alma

A casa de Vó Isabel tinha cheiro e gosto de infância. Um cheiro de comida fresca, de café passado na hora, de especiarias e de um misto de vida que só um lar movimentado e uma pensão podem ter. E a comida? Ah, a comida! Não existia nenhuma mais gostosa. Aqueles sabores da culinária mineira, feitos com a alma e com a tradição de gerações, eram um bálsamo para o paladar e para a alma. A gente adorava, e pedia sempre mais. Como era pensão, a diversidade no cardápio era vasta: carne de boi, porco e frango num mesmo prato, acompanhados de arroz soltinho, feijão temperado, quiabo, abóbora… Um verdadeiro banquete para qualquer criança (e adulto!), uma fartura que era um convite à celebração da vida.

A casa decorada como na infância

Das peças de decoração, lembro vividamente da radiola que enfeitava a sala. Não era apenas um móvel; era um portal para a música, para outras épocas e para as paixões dos adultos. Foi ali, naquele aparelho majestoso que combinava rádio e toca-discos, que ouvi pela primeira vez a música “Geni e o Zepelim”, de Chico Buarque. Uma canção que hoje, revisito e penso: um tanto inapropriada para uma criança e, convenhamos, para uma casa de vó no interior!

Creio que a “ousadia” musical era coisa dos meus tios mais novos, que não têm grande diferença de idade para os sobrinhos e que traziam consigo o frescor da juventude e da modernidade. Eles, com certeza, foram os responsáveis por introduzir um repertório que fugia dos clássicos esperados de uma avó. Era um misto de rebeldia e descoberta que me expôs a uma cultura musical mais ampla e, de certa forma, a uma realidade menos “cor-de-rosa” do que a idealizada para a infância. E foi ali que, sem saber, comecei a formar meu gosto musical, entre a tradição e o inesperado.

Dia de feira: Um evento de cores, cheiros e conexão

Os sábados, na casa de Vó Isabel, eram dias mágicos. Ainda hoje, no interior de Minas, o sábado é dia de feira de mercado, um evento por si só, que merece um post próprio e que, prometo, farei no futuro. Tem frutas frescas, verduras viçosas, legumes da estação, carne de qualidade, requeijão fresquinho, queijos artesanais, pimentas que aquecem a alma – uma variedade de coisas que enchem os olhos e o paladar. Para Vó Isabel, a feira era um ritual. Ela se arrumava toda para ir à feira, como se fosse a um evento social da mais alta importância. E, se eu estivesse lá, passando férias, era companhia frequente. Íamos juntas, ela com sua postura imponente, e eu, miúda, observando cada detalhe, cada interação.

Vó comprava uma carga inteira de frutas, daquelas que vêm em cestos grandes, presos no cavalo, para garantir o abastecimento da pensão e da família. Uma carga de laranja, outra de abacaxi e, na época certa, de manga, uma explosão de doçura e suculência. O vendedor, que era um parceiro de longa data e respeitava a clientela assídua, a acompanhava até em casa, carregando as enormes cestas. E ali, no corredor de entrada da pensão, ele despejava a carga todinha, enchendo a casa de alegria, de frutas rolando pelo chão e de um aroma cítrico que anunciava a abundância. Era um espetáculo de fartura, um prenúncio de sobremesas deliciosas e sucos refrescantes que marcavam as tardes de verão.

E esses momentos, embora complexos e desafiadores, também eram recheados de pequenas vitórias, de conquistas diárias que celebrávamos com euforia, de aprendizados sobre resiliência e sobre o verdadeiro significado de cuidar. Eles nos conectavam de uma forma profunda, criando um universo particular de cumplicidade e carinho. Eles nos ensinaram a valorizar cada pequeno progresso, cada sorriso, cada suspiro de contentamento que vinha dela. Essas memórias de cuidado não são apenas lembranças de dever cumprido ou de uma vida cheia de sacrifícios, mas de uma vida dedicada com paixão, de um amor que se manifestava em cada gesto, em cada planejamento, em cada segundo de atenção. O legado da Marcella não se resume às suas limitações, mas à imensidão do amor que ela inspirou e à força que ela nos ensinou a ter.

Meus avós: A dinâmica de um amor que se complementava

Tudo naquela casa, da organização da pensão aos banquetes diários, era resolvido por ela. Ela era o cérebro, a mão que executava, a força motriz que mantinha tudo em perfeito funcionamento. Meu avô José, por sua vez, era um marido que havia entendido há muito tempo a mulher à frente do seu tempo que tinha ao seu lado. Ele não estava nem aí para o fato de ela ser a grande figura da casa, a cabeça visível da pensão. Ele a amava e a admirava exatamente por essa sua força e independência.

A matriarca destemida e o marido que amava seus jeitos

Quando chegava um hóspede de madrugada, em uma época sem celulares ou internet, era ela quem atendia a porta, sem receio, sem hesitar. Não tinha medo do desconhecido, e impunha muito respeito junto àqueles homens que entravam e saíam da casa dela, fosse qual fosse o horário. Ela era a autoridade ali, e todos o sabiam. Vô José a amava do jeitinho que ela era: forte, decidida, um furacão de energia, uma mulher que não se enquadrava em padrões. O amor deles era palpável, um amor construído na admiração mútua e na aceitação genuína das particularidades um do outro.

Um ritual íntimo que representa um gesto de carinho inesperado

Eles eram um casal admirável, com sua própria dinâmica de carinho e cuidado. Tenho uma lembrança da rotina dos dois que é muito presente na minha memória e que, por sua peculiaridade, sempre me marcou profundamente. Vô José, com a maior naturalidade do mundo, depilava as axilas da minha avó. E o mais surpreendente: ele fazia isso com a mesma navalha com a qual ele se barbeava! Eu achava aquilo tão estranho na época, mas ao mesmo tempo, incrivelmente bonito.

Era um gesto de intimidade, de cuidado, de uma cumplicidade que transcendia o convencional. Ela levantava os braços, próximo à janela, para aproveitar a luz natural, e ele, com uma delicadeza e um cuidado que só o amor de uma vida pode proporcionar, fazia o serviço. Um pequeno ritual, um momento de ternura que demonstrava um nível de confiança e entrega mútua que é raro de se ver. Essa imagem, para mim, resume a beleza do amor deles: um amor que via a beleza nas imperfeições, que aceitava e celebrava as peculiaridades, e que encontrava no cuidado mútuo a sua maior expressão.

O legado de uma casa, o calor de uma memória e o amor que permanece

Faz um tempo que eles se foram. Primeiro, meu avô José, o homem da navalha e do amor sereno, partiu. E alguns anos depois, Vó Isabel, a matriarca impetuosa e amorosa, foi se juntar a ele. A ausência física de ambos deixou um vazio imenso, um silêncio onde antes havia risadas, cheiros e histórias. E a casa… Ah, a casa! Aquela que foi Pensão Globo, com suas portas em madeira, pintada em tinta óleo cinza, com sua infinidade de quartos onde tantos estranhos se tornaram parte da família, e cheirando comida gostosa a cada instante, não existe mais em sua forma física como a conhecemos.

A casa que vive na alma: um refúgio atemporal

Mas a sua essência, o seu espírito, a sua alma, continuam muito vivos. Vivos nas nossas memórias, nas nossas conversas em família, nas histórias que contamos e recontamos. É um lugar que existe em um plano atemporal, um refúgio para onde podemos voltar sempre que a saudade aperta, sempre que precisamos de um abraço invisível. A Pensão Globo pode ter fechado suas portas para hóspedes, mas ela nunca deixou de ser, no nosso coração, a casa de vó. E a casa de vó, como aprendi ao longo da vida, é muito mais do que tijolo e cimento; é afeto, é história, é raiz.

E você, leitor, leitora? Qual é a casa da sua avó que vive em sua memória? Que cheiros, sabores e histórias vêm à sua mente quando pensa nela? Quem foi a figura que te ensinou sobre coragem, amor e a beleza da vida em sua essência? Compartilhe suas lembranças nos comentários abaixo. Juntas, podemos celebrar esses legados afetivos que nos tornam quem somos e que continuam a nos guiar pelos caminhos da vida.

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Claudiai Ribeiro
Claudiai Ribeiro
1 ano atrás

Claudinha, adorei as histórias, vou ficar muito feliz se eu continuar lendo. Adorei a “Casa de Vó”. Peço a Deus que os meus netos lembrem de mim assim, boas lembranças, admiração! Vc é demais!

Helder Lima
Admin
1 ano atrás
Responder para  Claudiai Ribeiro

Oi, Cláudia! Obrigada pelo carinho e volte sempre pra ler mais por aqui. Tenho certeza que seus netos vão ter muitas lembranças boas de você e da sua casa.

Maria Helena Gabriel de Souza Pankowski
Maria Helena Gabriel de Souza Pankowski
1 ano atrás

Prima, às lágrimas que caíram de meu rosto foi da sensação de estar vivendo algo que não vivi, mas que gostaria de ter vivido.A casa da nossa vó, nos deixou saudades e você conseguiu retratar de forma fiel o que ela representou para cada um de nós…Muito obrigada, por me fazer recordar dessa época de maravilhosa.Sucesso!