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Minha mãe, 80 anos de uma vida construída sobre a rocha 

Minha mãe fez 80 anos este mês. Escrevo estas linhas ainda com a festa ecoando dentro de mim, com o gosto da comida, o som das vozes misturadas, as crianças correndo e aquele aperto no peito que só quem ama muito conhece.

A festa que ela não fez para si

Foi uma festa linda. Mas o mais bonito não estava no bolo, nem nos enfeites. Estava na benção que recebemos, uma benção que falava de família e de uma vida construída sobre a rocha. E eu olhei em volta e vi a prova viva daquela rocha: os cinco filhos, os nove netos, as duas bisnetas.

Oito netos presentes. A nona, que na verdade é a primeira, a minha Marcella, tenho certeza de que assistia a tudo lá do Céu, com aquele jeito dela de estar sem estar, de caber em tudo.

Uma casa cheia é o retrato dela

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Ali, naquela mesa, estava o retrato mais fiel da minha mãe. Não o retrato de parede, mas o retrato vivo: gente que ela juntou, gente que ela cuidou, gente que ela fez feliz.

O jeito dela de amar

Minha mãe ama de um jeito que é difícil de entender. Toda vez que a gente avisa que vai pra casa, que vai ter encontro de família, ela começa. Arruma a casa, faz obra, muda as coisas de lugar, vira tudo de cabeça para baixo. Faz uma bagunça enorme para, no fim, ficar tudo arrumadinho.

E eu entendo agora o que aquilo significa. Ela não está arrumando a casa. Ela está preparando o colo. Está dizendo, sem dizer uma palavra, que a gente pode chegar, que ali é o nosso lugar, que tudo foi pensado para nós.

As mãos que nunca param

Aos 80 anos, ela ainda mantém uma loja. Ainda faz quitanda para a família, para os amigos e para os clientes. Ela é especial para os netos e bisnetas, que a olham como quem olha para um milagre. E, além de tudo isso, cuida do meu pai, 16 anos mais velho, que está com a memória um pouco gasta, sinal dos tempos. Ela cuida dele com a mesma paciência com que cuidou de cada um de nós. Sem pedir nada em troca.

A pergunta que mora em mim

E é aqui que eu preciso ser honesta. Fico pensando se sou essa mãe que ela é. A verdade é que não sou. Ainda não sou. E me pergunto: serei um dia? Conseguirei amar com essa entrega, com essa coragem, com essa simplicidade que desarma?

57 anos ao lado dela

Quem é essa mulher que há 57 anos vive perto de mim mais do que qualquer outra pessoa? Que, mesmo morando distante, está sempre ao meu lado? Que, dentro da sua simplicidade, consegue ser a mulher mais grandiosa que eu conheço?

Ela pouco se cuidou para que todos nós fôssemos felizes. Doou-se inteira e nunca pediu recibo.

Como homenagear quem é tão grande

Como homenagear uma mulher tão especial, tão aguerrida? Talvez a resposta esteja no que ela me ensinou sem nunca ter dito: a grandiosidade não está no tamanho do que se faz, e sim no amor com que se fazem as coisas pequenas. Ela não construiu impérios. Construiu uma família. E, sobre a rocha, essa família segue de pé.

Minha mãe fez 80 anos este mês. E eu, aos 57, continuo aprendendo com ela. Continuo tentando ser um pouco do que ela é. Porque se um dia eu for metade da mãe que ela foi, terei sido uma mulher completa.

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