Quer saber um segredo para a felicidade? Uma daquelas verdades simples, mas profundas, que a vida nos revela nos momentos mais inesperados? Eu descobri o meu, e ele tem quatro patas, um latido forte e uma personalidade inesquecível. Tenha um pet. Mais especificamente, tenha uma cã, como a minha Lua.
Lua chegou sem fazer alarde, sem grandes expectativas, pequenina, ligeira e atenta a cada mínimo movimento, cada cheiro, cada som ao seu redor. Ela é a cachorrinha da família – ou melhor, a cã, porque eu sempre achei que o feminino de cão combina muito mais com “cã” do que com “cadela”. Essa escolha, evidentemente algo bem a meu ver e totalmente alinhado com a minha percepção e meu jeito de ser, já coloca a Lua em um lugar especial no nosso lar e em nossos corações: ela não é apenas um animal de estimação; é uma cã que veio para transformar meu cotidiano, reconfigurar meus dias e me ensinar lições valiosas. Atualmente com quatro anos de pura energia e personalidade, ela chegou em abril de 2021, no auge da pandemia de Covid-19, época em que todos nós vivíamos cada dia com uma intensidade diferente, cheios de incertezas e de uma busca por conexão e alento.
Embora ela tenha um jeitão meio bravo, que transparece na maneira de latir forte e de resolver os problemas do dia a dia com uma determinação inabalável, a Lua trouxe uma alegria imensa para a nossa casa, um calor e uma leveza que eram mais do que necessários naqueles tempos sombrios. Quatro anos se passaram desde sua chegada, e é simplesmente impossível imaginar a vida sem ela – mesmo em minhas viagens, quando sinto a sua falta de forma quase física, fica claro o quanto ela faz parte do meu equilíbrio, da minha rotina e do meu bem-estar emocional. Ela é a âncora, a alegria, a bagunça organizada do nosso lar.
O domínio do território: personalidade vibrante e convivência desafiadora
Moramos num espaço grande, que é um verdadeiro paraíso para a Lua. O quintal é um convite irrecusável para que ela corra à vontade, explorando cada cantinho com a curiosidade e a vivacidade que lhe são peculiares. Cada arbusto, cada flor, cada pedacinho de grama é um mundo a ser descoberto, um cheiro a ser decifrado. E nesse vasto território, ela se sente a verdadeira soberana.
Mas a realeza tem seus desafios. Os vizinhos têm gatos, e esses felinos, com sua agilidade e um certo desdém pela propriedade alheia, sempre acabam entrando no nosso quintal pelas árvores. É aí que a Lua, autoproclamada dona absoluta do território, se transforma. Seus olhos brilham, suas orelhas se levantam, e ela se enche de uma energia inesgotável para correr, latir e, de forma veemente, expulsar esses hóspedes indesejados. É uma batalha diária, uma demonstração de força e territorialidade que, para nós, é um verdadeiro espetáculo.
Latidos como solução e a dificuldade com o novo
É engraçado e, ao mesmo tempo, fascinante ver como ela resolve os próprios dilemas usando o latido como sua principal ferramenta de comunicação. Seja quando o interfone toca e ela anuncia a chegada de alguém com uma série de latidos graves e insistentes, quando chega uma visita e ela se posiciona como guardiã intransigente da casa, ou até mesmo quando alguém se empolga no volume da conversa em casa e ela sente que a paz foi perturbada. Os latidos da Lua são sua forma de expressar um ponto de vista muito claro: “Estou aqui! Eu vi! Eu ouvi!” Ela é o nosso alarme, o nosso porteiro, o nosso termômetro de ambiente.
Talvez por conta dessa personalidade tão forte, tão assertiva, e bastante desconfiada, ela ainda tenha dificuldade de se acostumar com pessoas novas. Por exemplo, quando vamos visitar a casa dos meus pais, já começa a latir de novo para todas as pessoas, mesmo que elas já sejam conhecidas e que ela as tenha visto diversas vezes. É um ritual, uma forma de reafirmar sua desconfiança e sua necessidade de testar o terreno. É um comportamento que nos desafia, mas que também nos lembra da complexidade e da riqueza do universo canino.
O encanto por trás do "cachorra chata”
Para muitas pessoas que não a conhecem profundamente, essa atitude de latir para tudo e todos, de ser tão territorialista, pode ser vista como um comportamento exagerado. “Que cachorra chata!” – já ouvi isso, e não foram poucas as vezes. Para mim, porém, essa visão superficial não diminui em absolutamente nada o charme e a inteligência dela. Pelo contrário! Ela é linda, com aqueles olhos atentos e o pelo macio. É amorosa, apesar do jeitão bravo, e demonstra seu carinho com ‘lambeijos’ e encostadinhas. É brava, sim, uma guardiã fiel e determinada. E também é a mais “pidona” de todas as cãs que já conheci.
Basta a gente começar a arrumar a mesa para uma refeição que ela já se aproxima, com aquela discrição que só ela tem, senta pertinho, e lança aquele olhar que, de tão suplicante e intenso, quase nos obriga a dividir um pedacinho do que estamos comendo. É um olhar que derrete qualquer coração, uma estratégia infalível que a coloca no centro das atenções. Essa mistura única de teimosia, bravura e uma doçura irresistível é algo que só faz com que eu a ame cada vez mais. É a complexidade de sua personalidade que a torna tão especial e fascinante.
Do medo à conexão incondicional
Confesso, e sem qualquer vergonha, que nunca fui fã de cachorros. Desde a infância, mantive uma certa distância, um receio inexplicável em relação a esses animais. Tivemos outras duas em casa antes da Lua: a Tita e a Lala. Ambas eram muito mais mansas, mais tranquilas, mais “comportadas” do que a Lua. No entanto, nunca me aproximei delas do mesmo jeito. Sempre tive aquele receio, quase um medo infantil e irracional, de que, a qualquer momento, viesse alguma mordida, algum movimento brusco que me assustasse.
Talvez fosse algum trauma antigo, algo que minha mente de criança registrou e que me acompanhou até a vida adulta. Mesmo vendo que elas viveram em casa por mais de dez anos, sendo parte da família e convivendo diariamente conosco, a conexão verdadeira, aquele laço profundo e inquebrável que se forma com um animal de estimação, nunca aconteceu comigo. Com a Lua, foi completamente diferente. Foi amor à primeira vista, uma conexão instantânea que desafiou todas as minhas expectativas e medos.
Humano de referência: O elo que se solidifica
Assim que ela chegou, pequenina e cheia de vida, eu me apeguei rapidamente, de uma forma que nunca havia experimentado antes. Inicialmente, a Lua seria da Ana, minha filha, uma companheira para ela. Mas, quando a Ana se mudou para estudar, a vida e o destino se encarregaram de reescrever essa história. Acabei me tornando a tutora oficial da Lua – e isso me honra profundamente, pois posso dizer, com toda a convicção e o orgulho, que sou o humano de referência dessa cã tão especial. É uma responsabilidade que abraço com carinho, uma troca que me enriquece a cada dia.
Entre mim, o Fernando (meu marido) e a Ana, não há dúvidas de que a Lua é mais apegada a mim. Eu sou a sua pessoa. É com quem ela busca o primeiro contato ao acordar, a quem ela segue pela casa, em quem ela busca o conforto. Mas não há dúvida de que ela ama todos de coração, com aquele amor incondicional e puro que só os animais podem oferecer. Ela distribui seu afeto, mas a mim, ela dedica um carinho especial, uma lealdade que me emociona.
O pet como apoio emocional: Uma nova dimensão do amor e da cura
A presença constante da Lua em minha vida me ensinou a conhecer e a compreender um amor completamente diferente, um amor que transcende as barreiras da linguagem e da razão humana. Eu sempre achei que ter apoio emocional apenas em seres humanos era o bastante, que as relações familiares e de amizade preenchiam todas as lacunas. Mas a verdade é que animais de estimação, com sua capacidade de oferecer um afeto puro e verdadeiro, realmente nos ajudam a superar momentos difíceis da vida de uma forma, que pra mim, é muito diferente do habitual.
O poder curativo de um abraço silencioso
Sei que muita gente atribui a importância dos animais à dependência emocional, a uma necessidade excessiva de carinho ou companhia. Mas no meu caso, não se trata de uma carência, de uma necessidade patológica; é apenas o reconhecimento profundo de que a companhia dos bichos tem um poder curativo importante, uma capacidade ímpar de acalmar a alma e o coração.
Recordo que, quando a Marcella morreu, em 2022, o período mais doloroso da minha vida, pude perceber de forma quase palpável como o aconchego da Lua aquietava o meu coração em luto. Em meio àquela dor dilacerante, bastava ela se encostar em mim, fazer um lugar perto do meu corpo, e eu encontrava um acolhimento, uma presença silenciosa, incapaz de julgamentos, que me dava forças para seguir adiante. Não era uma dependência; era um bálsamo, um alento que me permitia respirar em meio à angústia, sem que isto me tornasse emocionalmente dependente de forma insalubre. Era uma troca de energias, um amor que não exigia nada em troca, apenas a aceitação daquele momento presente.
Desmistificando o "apego exagerado" por meio da sabedoria dos animais
Há quem ache que a nossa relação com os animais pode ser vista como um excesso de carinho, uma “humanização” exagerada, ou até uma forma de apego desnecessário. Eu também já fui dessas pessoas que não entendiam essa ligação intensa, que observavam de longe com uma pontinha de estranhamento. Contudo, com o tempo, e principalmente com a convivência com a Lua, aprendi que os animais, como ela, vão muito além de serem apenas companheiros de quatro patas ou meros adornos em nossos lares.
Eles nos ensinam sobre resiliência, com sua capacidade de se adaptar e de encontrar alegria nas coisas mais simples. Eles nos ajudam a transformar nossa maneira de encarar a vida, suavizando os percalços do dia a dia com sua presença constante e sua lealdade visível. De fato, nas horas de maior dificuldade, quando as palavras parecem insuficientes, o olhar sincero e a presença tranquila de um cão podem ser o alento que falta para muitos de nós, um suporte que nenhuma terapia consegue replicar com a mesma naturalidade. Eles são mestres silenciosos.
Lições de convivência e transformação pessoal
Além de tudo o que já mencionei, ter a Lua tem sido uma verdadeira aula de convivência e paciência. Cada dia com ela é um novo aprendizado sobre o que realmente importa na vida. A maneira como ela enfrenta o mundo com aquela postura determinada – seja para expulsar gatos, para latir para o carteiro, ou para pedir um pedacinho de pão – e, ao mesmo tempo, carinhosa, me lembra de que cada desafio, cada obstáculo, pode ser transformado em aprendizado e, muitas vezes, em uma oportunidade para rir de si mesmo.
O latido que é uma expressão de personalidade
Ela me faz ver que, mesmo quando surgem obstáculos – seja o preconceito com a sua forma de ser, que como eu já disse, para alguns pode ser “chata”, ou as dificuldades em socializar com pessoas novas que ela encontra –, há sempre um jeitinho de superar as adversidades com leveza e até bom humor. Quando ela late por qualquer motivo, não é só barulho; é uma expressão da sua personalidade vibrante, de sua vontade de proteger seu espaço, de sua determinação em marcar presença e de sua singularidade.
A transformação pessoal
A minha história com a Lua também é uma história de transformação pessoal. Eu, que sempre tive certo receio de animais, de ser mordida, hoje vivo todas as alegrias que esse amor me oferece. É um amor que não cobra, não julga, apenas está. É um equilíbrio delicado, sim, mas que mostra como os bichos podem completar nossa existência e trazer significado para cada dia vivido, adicionando camadas de alegria e de propósito. Essa mudança de perspectiva abriu meu coração para ver o valor intrínseco dos animais e a beleza de uma convivência harmoniosa, pautada na simplicidade e na sinceridade das emoções.
Um lar expandido com liberdade e vitalidade
Com um quintal espaçoso e muita liberdade para correr, a Lua também nos mostra que o espaço onde vivemos não é só uma casa, um amontoado de paredes e objetos. Ele é um refúgio de experiências, um palco para a vida, um lugar onde podemos nos reconectar com a natureza e com nossa própria essência mais primal e verdadeira. Quando ela corre livre, com sua alegria contagiante, parece que a energia que emana dela se espalha por toda a casa, trazendo vitalidade e um calor humano que, de certo modo, torna os dias mais leves, mais felizes, mais vibrantes.
A essência do amor animal
Hoje, depois de aprender tanto com ela, posso afirmar com convicção que os animais têm um papel muito relevante, e muitas vezes subestimado, na vida de quem os ama. Eles nos acolhem com um carinho sem reservas, uma lealdade que não se abala. Ajudam a suavizar as durezas do mundo, as frustrações do dia a dia, e acompanham nossos passos com uma alegria e uma fidelidade que são fontes de inspiração. A convivência com a Lua me ensinou a importância de apreciar os pequenos gestos, de valorizar cada momento de quietude ou de brincadeira, e de compreender que, às vezes, nossa melhor ajuda, nosso maior suporte, vem de um ser que não fala, mas demonstra com atitudes, com olhares, com a simples presença. Esse aprendizado é definitivamente algo que quero dividir com cada um que acompanha este blog, pois é uma verdade que merece ser espalhada.
Encontrando motivação no cotidiano
Afinal, a verdadeira força vem da capacidade de encontrar, nas pequenas certezas do dia a dia – seja na forma de um olhar sincero, de um gesto carinhoso, de um carinho inusitado ou até mesmo de um latido “bravo” –, a motivação para seguir em frente, com coragem, com leveza e com a certeza de que o amor, em suas mais variadas formas, é o que realmente nos sustenta.
PS: Um rosto real para um amor verdadeiro
Em resumo, a história da Lua, a cã que se tornou uma integrante indispensável da nossa família, é também a história de como os animais realmente nos ajudam a superar momentos complicados, com sua energia, sua autenticidade pura e o seu amor incondicional que nos eleva e nos transforma.
PS: A Lua é tão importante, tão central em nossas vidas, que mereceu uma foto real aqui no blog. Geralmente, sempre uso imagens que têm relação com o tema, mas que não representam aquilo diretamente, mantendo uma certa abstração. Mas a cã aí da foto é a minha Lua, sim. E ela merecia essa exceção, pois sua presença é tão real e tão vívida quanto a história que acabei de contar.
Muito bem! Amei o texto. Nunca gostei de cães e gatos. Por rejeição mesmo e também porque sou muito alérgica. Mas confesso que hoje sinto inveja quando vejo essa afinidade de humanos com animais. Acho que toda rejeição veio da infância. Hoje vejo criancinhas mesmo antes de andar já são amigas dos animais. Eu não tive esse incentivo. Parabéns! Você é nota mil. Te amo.
Eu também acredito que a minha resistência com animais vem da infância. Até a Lua chegar tinha medo até de passarinho. Ela me ajudou a ultrapassar essa barreira. Adote um dog, ainda dá tempo. Bj.
Ela é perfeita. ❤️