Deixei para trás as paisagens serenas e a vida tranquila de Minas Novas, no Vale do Jequitinhonha, movida pelo sonho de ser repórter e pela promessa interior de dar voz às histórias que merecem ser contadas. No meu sonho, eu não queria apenas ser repórter; eu sonhava ser repórter de revista. Quando eu estava na faculdade, as revistas semanais faziam muito sucesso e jovens jornalistas sonhavam mesmo em trabalhar numa daquelas redações, que eram vistas como o ápice da carreira, o lugar onde as grandes reportagens investigativas e as análises aprofundadas ganhavam vida. A atmosfera vibrante das redações, o cheiro de papel e tinta, a efervescência das ideias e a busca incessante pela verdade eram um chamado irresistível. Eu me imaginava mergulhando em pautas complexas, viajando para lugares distantes e, através das minhas palavras, impactando a forma como as pessoas viam o mundo. Era um ideal romântico, mas profundamente enraizado na minha paixão pela comunicação e pela narrativa.
O sonho e a realidade: uma jornada de adaptação
Ao me formar em Jornalismo, em 1996, deparei-me com a realidade de um mercado já saturado, onde as redações, embora ainda fossem o epicentro da notícia, começavam a sentir os primeiros ventos de uma transformação que se intensificaria nas décadas seguintes. A promessa de salários abaixo do mínimo da categoria era um balde de água fria para quem sonhava com a glória das grandes reportagens. No entanto, a paixão por comunicar era mais forte do que as adversidades. Foi nesse cenário que encontrei um caminho na assessoria de comunicação, decidida a ser a melhor profissional possível, adaptando meu sonho à realidade do mercado sem abrir mão da essência do meu ofício.
A aspiração inicial
A imagem do repórter de revista, com sua liberdade para investigar, seu tempo para aprofundar e seu espaço para narrar histórias complexas, era o grande motor da minha escolha profissional. Naquela época, as revistas semanais como Veja, IstoÉ e Época eram verdadeiros ícones do jornalismo brasileiro, ditando pautas, influenciando debates e moldando a opinião pública. Elas representavam o jornalismo de fôlego, aquele que ia além do factual para oferecer contexto, análise e perspectivas diversas. A ideia de contribuir para um veículo que valorizava a pesquisa, a escrita elaborada e a produção de conteúdo de alta qualidade era o que me movia. Eu via nessas publicações a oportunidade de fazer um jornalismo que realmente fizesse a diferença, que informasse e, ao mesmo tempo, provocasse reflexão e debate na sociedade. O glamour associado a essas redações, com seus jornalistas renomados e suas matérias de capa impactantes, era um atrativo inegável para uma jovem recém-formada.
O encontro com um mercado em transformação
Contudo, a realidade do mercado de trabalho para jornalistas recém-formados era bem diferente do idealizado. A concorrência era acirrada, e as poucas vagas disponíveis nas grandes redações eram disputadas por centenas de profissionais. Além disso, a remuneração oferecida muitas vezes não condizia com a complexidade e a importância da profissão. Foi nesse contexto que a assessoria de comunicação surgiu como uma alternativa viável e, para mim, surpreendentemente gratificante. Em vez de reportar sobre eventos e fatos para o público em geral, eu passaria a gerenciar a comunicação de empresas e instituições, atuando como uma ponte entre elas e a imprensa, e também com seus públicos internos e externos. Essa mudança de rota não significou abandonar o jornalismo, mas sim aplicá-lo em um novo contexto. A necessidade de apurar informações, redigir textos claros e persuasivos, construir narrativas e gerenciar crises eram habilidades jornalísticas que se mostravam essenciais na assessoria. Foi um período de intensa aprendizagem e adaptação, onde a versatilidade se tornou uma característica fundamental.
A evolução da comunicação na era digital
Durante quase três décadas, dediquei-me a esse ofício, testemunhando a transformação da comunicação de uma forma que poucas gerações puderam acompanhar. A tecnologia não apenas revolucionou a forma como nos conectamos, mas também alterou profundamente o panorama da imprensa mundial, redefinindo o que significa “notícia” e como ela é consumida. Essa evolução, embora traga inegáveis benefícios em termos de acesso à informação, também gerou desafios complexos e, por vezes, preocupantes.
A revolução tecnológica e a imprensa
A chegada da internet e, posteriormente, das redes sociais, foi um divisor de águas para a imprensa. As redações, antes vibrantes centros de investigação e narrativa profunda, enfrentam crises desencadeadas pela digitalização, a queda das receitas de publicidade (que migraram para as plataformas digitais) e a pressão por velocidade em detrimento da qualidade. O modelo de negócio tradicional dos jornais e revistas, baseado em assinaturas e anúncios impressos, foi abalado. A notícia, que antes tinha um ciclo de 24 horas (no caso dos jornais diários) ou semanal (para as revistas), tornou-se instantânea. A demanda por conteúdo “em tempo real” fez com que a apuração aprofundada e a checagem rigorosa fossem, muitas vezes, sacrificadas em nome da agilidade. O “furo” jornalístico, antes um símbolo de excelência, passou a ser uma corrida desenfreada por cliques e visualizações. Essa mudança impôs uma nova dinâmica aos profissionais, exigindo multitarefas, agilidade e uma constante atualização tecnológica.
A crise da informação: superficialidade e fake news
Essa crise global na imprensa não é apenas uma questão de sobrevivência dos veículos de comunicação, mas também uma preocupação com a qualidade da informação que chega ao público. A superficialidade e a proliferação de notícias falsas (fake news) são desafios que ameaçam a essência do jornalismo e a própria democracia. Em um ambiente onde qualquer um pode ser um “produtor de conteúdo”, a distinção entre informação verificada e boato se tornou tênue. As reportagens investigativas e as análises aprofundadas, que exigem tempo e recursos, deram lugar a textos cada vez mais curtos, manchetes sensacionalistas e conteúdos voltados para captar a atenção rápida das redes sociais. A necessidade de dar a notícia em primeira mão, muitas vezes, compromete a apuração consistente e rigorosa, abrindo espaço para erros e desinformação. Como representante da velha guarda, sinto profundamente essa transformação e o seu impacto na sociedade, observando com preocupação a erosão da confiança nas instituições jornalísticas e o desafio de discernir a verdade em meio a tanto ruído.
Um ponto de virada pessoal e um novo propósito
Embora eu não me tornado repórter de revista, sempre desempenhei o papel de repórter nas empresas em que trabalhei ou prestei serviços. O jornalismo está entranhado em mim; nunca me vi em outra profissão. Quando alguém me pergunta o que eu seria se não fosse jornalista, sempre digo que só o jornalismo serve para mim. E brinco: no máximo, eu seria cozinheira, porque é outra coisa que sei fazer direitinho, com paixão e precisão. Essa paixão inabalável pelo jornalismo, no entanto, foi confrontada por um evento pessoal que redefiniu minhas prioridades e me impulsionou a buscar um novo propósito.
O jornalismo entranhado
Apesar das mudanças no mercado e da minha atuação na assessoria de comunicação, a essência do jornalismo nunca me abandonou. A curiosidade, a busca pela verdade, a capacidade de contar histórias, a ética na apuração e a responsabilidade com a informação são pilares que sempre guiaram minha trajetória. Mesmo em funções que não envolviam diretamente a produção de notícias para o público, eu aplicava o “olhar de jornalista”: a capacidade de identificar o que é relevante, de organizar informações complexas de forma clara e concisa, e de antecipar cenários. Essa mentalidade jornalística me permitiu atuar com versatilidade em diversas áreas da comunicação, desde a gestão de crises até a produção de conteúdo institucional. É uma parte tão intrínseca da minha identidade que, como brinco, a única alternativa seria a cozinha – um espaço onde a criatividade, a precisão e a capacidade de transformar ingredientes em algo delicioso também se fazem presentes, de uma forma muito particular.
A coragem da mudança: perda e redefinição
Foi nesse cenário de paixão pelo jornalismo e de observação das transformações na comunicação, ao perceber o desinteresse pelo português correto e pelas notícias sérias, que comecei a buscar mais uma maneira de atuar com comunicação, algo além do que eu já fazia e que me trouxesse felicidade. A morte da minha filha, em junho de 2022, foi o ponto de partida para eu criar coragem de fazer a mudança necessária. A dor da perda, a sensação de que “nada fazia sentido”, me impulsionou a reavaliar tudo. Eu tinha um bom emprego, do qual eu gostava, mas que já não me fazia feliz, não me preenchia da mesma forma. Quatro meses após a morte da Marcella, decidi me demitir. Foi uma decisão radical, tomada em um momento de profunda vulnerabilidade, mas também de clareza. Tinha 53 anos e não tive medo de encarar o mercado de trabalho, nem do etarismo. Ele existe, é uma realidade, mas até aqui não fui um alvo direto, talvez pela bagagem e pela segurança que a experiência me trouxe. Essa coragem de romper com o status quo, de abraçar o desconhecido em busca de um propósito maior, foi um divisor de águas na minha vida e carreira.
O poder da comunicação assertiva
Decidi então que era hora de compartilhar minha experiência acumulada de maneira que pudesse impactar positivamente outras vidas. Tem estado na moda falar em missão de vida, propósito, e não tenho nada contra. E acho que o que vem acontecendo comigo não é uma mudança de propósito e sim um acréscimo, na minha já extensa lista de atividades. Encontrei algo muito interessante para fazer: treinar e capacitar pessoas para desenvolver uma comunicação mais assertiva. Acredito que a comunicação eficaz é uma habilidade essencial que traz ganhos significativos em todas as áreas da vida, desde o ambiente profissional até as relações pessoais, e que pode ser aprendida e aprimorada por qualquer um.
A descoberta da vocação para treinar
Eu já treinava pessoas na última empresa em que trabalhei, de forma informal, e foi lá que percebi que isso tinha muita relação com o meu perfil e com o que eu gosto de fazer. Observava colegas e colaboradores com dificuldades em expressar suas ideias, em apresentar projetos, em lidar com conflitos ou em liderar equipes. O jornalista tem um olhar apurado para tudo, e eu vi problemas de comunicação em muita gente ao longo da minha carreira. Pessoas com dificuldade de falar em público, que não conseguiam liderar equipes por insegurança, que tinham ideias brilhantes mas não sabiam como comunicá-las de forma persuasiva, uma série de coisas. Essa percepção me fez entender que havia uma lacuna enorme no desenvolvimento de habilidades de comunicação, e que minha experiência prática poderia ser um diferencial para preenchê-la. A satisfação de ver alguém “destravar” e se comunicar com mais confiança era imensa.
Uma ponte entre conhecimento e melhoria
Meu objetivo é ser uma ponte entre o conhecimento prático e a melhoria contínua, ajudando as pessoas a comunicarem-se de forma clara e impactante, evitando armadilhas comuns e maximizando seu potencial. Isso envolve não apenas técnicas de oratória ou escrita, mas também o desenvolvimento da escuta ativa, da empatia, da capacidade de dar e receber feedback, e da construção de narrativas eficazes. A comunicação assertiva não é apenas sobre o que se diz, mas sobre como se diz, e sobre a capacidade de construir pontes e gerar conexão. Acredito que, ao aprimorar a comunicação, as pessoas não só alcançam melhores resultados em suas carreiras, mas também fortalecem seus relacionamentos pessoais, resolvem conflitos de forma mais construtiva e se tornam mais confiantes em suas interações diárias. É um investimento no desenvolvimento humano integral, que transcende o ambiente de trabalho e impacta a qualidade de vida.
Construindo uma carreira versátil
Ao refletir sobre minha jornada, vejo um caminho pavimentado por desafios e conquistas, cada passo guiado pela paixão por comunicar e conectar. A maturidade revelou-se uma aliada poderosa, trazendo a clareza necessária para essa nova fase, e a versatilidade construída ao longo dos anos me deu a segurança para abraçar novos rumos.
A maturidade como aliada: clareza e segurança
Aos 53 anos, a decisão de deixar um emprego estável e reinventar a carreira poderia parecer arriscada para muitos. No entanto, a maturidade trouxe uma clareza e uma segurança que a juventude não oferece. A experiência acumulada ao longo de quase três décadas de profissão, somada às vivências pessoais, me proporcionou uma perspectiva mais ampla sobre a vida e o trabalho. Percebi que posso fazer um milhão de coisas, sem deixar de ser jornalista. Afinal, toda essa transformação tecnológica ampliou o já vasto leque de atribuições que temos. A maturidade me ensinou a valorizar o propósito acima da estabilidade, a confiar na minha capacidade de adaptação e a enxergar os desafios como oportunidades de crescimento. Essa nova fase é um testemunho de que a idade não é um limite, mas um catalisador para novas descobertas e realizações.
A bagagem da assessoria de comunicação
Eu tinha emprego fixo e fazia um pouco de tudo, à parte: assessoria de imprensa, cobertura de eventos, planejamento de comunicação, roteiros, livros institucionais, campanhas políticas, gestão de redes sociais, produção de conteúdo para web, comunicação interna e externa. Essa diversidade de experiências me deu uma bagagem imensa e segurança para mudar de rumo quando foi preciso. Não mudei tanto assim, continuo fazendo tudo isso, mas agora com a liberdade de escolher os projetos que mais me conectam e que me permitem aplicar minha expertise de forma mais autônoma. O que houve foi a coragem de encarar sozinha, de ser a protagonista da minha própria jornada profissional. Agora o segredo tem sido administrar esse monte de coisa que eu inventei de fazer, conciliando os projetos de treinamento com as demandas de assessoria e consultoria. No final das contas, foi a escolha pelas assessorias que me permitiu ir além do jornalismo tradicional e fincar o pé na comunicação como um todo, explorando todas as suas vertentes e possibilidades. Essa versatilidade é o que me permite hoje atuar em diferentes frentes, oferecendo soluções completas e personalizadas para meus clientes.
O legado da transformação: inspirando outros
Encorajo a todos a abraçarem suas experiências como fontes de sabedoria e a usarem essa força para transformar suas próprias vidas e carreiras. Que possamos valorizar a maturidade não apenas como a passagem do tempo, mas como um convite à transformação e ao crescimento pessoal e profissional. A verdadeira riqueza de uma carreira não está apenas nos títulos ou nos salários, mas no impacto que somos capazes de gerar na vida das pessoas.
A gratidão de ver a mudança
No meu caso, em específico, treinar pessoas tem sido gratificante de uma forma que poucas outras atividades profissionais me proporcionaram. São treinamentos que cabem em qualquer empresa, porque existe dificuldade de comunicação em todo lugar, independentemente do setor ou do tamanho da organização. A cada curso, a cada workshop, vejo a transformação acontecendo diante dos meus olhos. Outro dia, no final de um desses cursos, quando a turma estava reunida para um café, uma das alunas me chamou num canto, me abraçou e disse: “Obrigada! Você mostrou que eu cometo erros e que isso é simples de resolver”. Um outro me falou que eu destravei a sua comunicação, que ele se sentia preso e agora consegue se expressar com clareza e confiança. Venho juntando esses relatos e tem sido bom fazer isso. Aliás, bom demais. Essa gratificação, essa sensação de estar realmente fazendo a diferença na vida das pessoas, é o que me impulsiona e me dá a certeza de que estou no caminho certo.
Convite à transformação contínua
A vida é um processo contínuo de aprendizado e adaptação. Minha jornada é um testemunho de que, mesmo diante de perdas profundas e de um mercado em constante mutação, é possível encontrar um novo sentido e um novo propósito. A comunicação, em suas múltiplas formas, continua sendo o fio condutor da minha existência, e a capacidade de transformar e ser transformada por ela é o meu maior legado. É um convite para que cada um de nós olhe para suas próprias experiências, para seus desafios e conquistas, e encontre nelas a força para se reinventar. Que possamos ser agentes de mudança, não apenas em nossas próprias vidas, mas também na vida daqueles que nos cercam, através de uma comunicação mais consciente, empática e transformadora.
E você, já pensou em mudar de rumo ou acrescentar algo à sua carreira? Compartilhe sua experiência nos comentários!
Muito bom!
Muito obrigada!
Massa!! Liderança, clareza e firmeza na informação!!!…
Fico muito feliz que tenha gostado.