Do cinza ao dourado, sem atalhos: uma gratidão que cabe na vida
Ontem foi Dia de Finados. E, embora eu pense na Marcella todos os dias, essa data abre um espaço silencioso que me convida a olhar a vida com mais cuidado. É quando as perdas e ganhos aparecem com nitidez: o luto não tem cura, ele muda de cor. Já foi cinza espesso, daquele que esvazia a alma. Hoje, em alguns momentos, fica dourado — quando as lembranças chegam como um abraço. E, sem aviso, pode voltar a ser cinza. A vida nos ensina a dançar entre essas duas luzes.
A falta que muda o endereço das certezas
Perder um filho é excessivamente difícil. A minha tinha paralisia cerebral severa, e com ela aprendi um outro tempo, um outro jeito de dizer amor. Eu não estava preparada para a despedida. Ninguém está. Ainda assim, no meio da dor, há frestas de aprendizado que a gente não escolheu, mas que, de algum modo, nos escolhem: paciência, presença, ternura. Entre perdas e ganhos, descubro que o amor muda de forma — e continua.
Entre perdas e ganhos: escolher como atravessar
Pensei também em outras partidas: meus avós, meus sogros, amigos, amigos de amigos. Perde-se o emprego, adoece-se, alguns perdem um pedaço do corpo em acidentes, outros encerram ciclos que pareciam permanentes. A vida nos pede escolhas, e a principal delas é a postura para atravessar. Não falo de positividade tóxica. Falo de uma decisão íntima: lutar pela vida com suas perdas e ganhos, com sabedoria, empatia e uma crença teimosa de que vamos dar conta — um dia de cada vez.
Três práticas simples para dias pesados
- Respiração que abre espaço: três respirações lentas e profundas, sentindo o ar entrar e sair. É pouco? É começo.
- Ritual de memória: acender uma vela, preparar um prato favorito, ouvir a música que aproxima. Pequenos gestos dão nome ao que sentimos.
- Palavra dita: pedir ajuda, aceitar companhia, dizer “hoje está pesado”. O peso dividido encontra outra gravidade.
Quando o tempo vira aliado
O tempo não cura, mas ensina a conviver. Ele redesenha as bordas da dor para que ela não transborde sempre. Aos poucos, a gente reaprende a sorrir sem culpa e a chorar sem pressa. O dia comum volta a ter detalhes que aquecem: a luz da tarde na mesa, o café que esfria devagar, a mensagem de um amigo. Em meio às perdas e ganhos, a vida continua oferecendo pequenos recomeços.
Gratidão que ampara, sem negar
Gratidão não é apagar a falta — é reconhecer o que permanece. É lembrar dos instantes vividos, do que amadureceu em nós, da força que brota mesmo quando achamos que não teremos mais nenhuma. Gratidão é uma postura de quem olha a realidade inteira: o cinza que dói, o dourado que acolhe.
Seguir adiante, sem perder de vista
Não existe “encerrar” o luto. Existe aprender a caber em todos os lugares com ele. A Marcella segue comigo nos gestos, nas escolhas, na escuta que aprimorei, na coragem de continuar. Entre perdas e ganhos, sigo escolhendo a vida — por mim, por ela, por todos que amo. Quando o cinza pesa, lembro: o dourado existe. E, mesmo que pequeno, um passo adiante é sempre um passo adiante.
Um convite simples
Se hoje amanheceu difícil, escolha um ato de cuidado: escreva três linhas do que você sente, caminhe cinco minutos sentindo o chão, ligue para alguém que entende seus silêncios. As perdas e ganhos fazem parte da nossa missão de viver. Seguir, apesar de tudo, é um jeito bonito de honrar quem ficou e quem partiu. Se você gostou do meu texto, volte mais vezes. Pegue o seu café e fique comigo um pouco!
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Beijo, Anicha!