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Gratidão que não cabe em uma palavra

Tenho falado ao longo deste mês sobre maternidade atípica porque é um tema que não cabe em uma única história. Ele se desdobra. Ele volta. Ele se aprofunda.

Na semana passada, falei sobre rede de apoio — sobre como ela não é luxo, mas necessidade. Hoje, para fechar este ciclo de conversas, eu quero falar de algo que talvez pareça um contrassenso para quem está de fora: a gratidão.

Não a gratidão de cartão de dia das mães. Não a gratidão de discurso pronto. A gratidão que nasce do chão, da rotina, da dor que se transforma em aprendizado. A gratidão por ter tido a Marcella, minha filha, com paralisia cerebral.

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Ela partiu em 2022, mas sua presença em mim é permanente. E é sobre essa permanência que eu quero falar hoje.

Quando o diagnóstico vira caminho

Eu fui mãe muito jovem. E, como acontece com tantas mulheres, a maternidade chegou antes de eu estar “com a vida organizada” do jeito que o mundo gosta de exigir.

Quando a Marcella nasceu, eu não sabia que nossa história seria escrita em letras diferentes. O diagnóstico de paralisia cerebral veio depois, e com ele uma sensação que muitas mães atípicas reconhecem: a vida parece virar um corredor estreito.

Você olha pra frente e só enxerga portas difíceis. Consultas. Terapias. Adaptações. Incertezas.

Hoje, olhando para trás, eu consigo ver que aquele corredor estreito não era um beco sem saída. Era um caminho que me ensinou a enxergar o mundo de um jeito que eu jamais teria aprendido em qualquer livro.

A maternidade atípica me ensinou coisas como:

  • A força que existe na vulnerabilidade. Em pedir ajuda sem vergonha. Em dizer “não sei” sem culpa. Em aceitar que nem tudo está sob nosso controle — e que isso não nos torna fracas, nos torna humanas.
  • A beleza de encontrar um porto seguro em quem menos se espera. Meus pais, meus irmãos, meu marido, profissionais que viraram gente da casa — cada um deles foi um pedaço de chão firme quando eu sentia que estava afundando.
  • A clareza de que aceitar não é desistir. É abrir espaço para novas formas de amar. É entender que lutar por inclusão, por direitos, por dignidade, é diferente de lutar contra a realidade do seu filho.
  • A capacidade de valorizar avanços que, para outros, seriam pequenos. O primeiro sorriso que demorou meses. A primeira vez que ela conseguiu segurar um objeto. O som que ela fazia quando reconhecia minha voz. Em uma maternidade atípica, cada conquista é monumental.
  • A arte de colecionar instantes. De parar no meio do caos e perceber: “este momento importa”. De guardar na memória não apenas as grandes vitórias, mas os silêncios compartilhados, os olhares que diziam tudo, as mãos que se encontravam sem precisar de palavras.

A gratidão que dói e cura

Eu sei que falar em gratidão numa maternidade atípica pode soar estranho. Às vezes, até ofensivo. Porque ninguém é grato pela dor, pelo cansaço, pela luta diária.

Mas eu aprendi que existe uma gratidão que não nega a dificuldade. Ela a reconhece. Ela a transforma.

Eu não sou grata pela paralisia cerebral da Marcella. Sou grata pela Marcella — por quem ela era, por como ela me ensinou a ser mãe, por como ela me fez repensar tudo o que eu achava que sabia sobre amor.

E essa gratidão tem um sabor complexo. Ela dói, porque ela não está mais aqui fisicamente. E cura, porque o que ela me deixou continua vivo em mim.

Continuar contando a história dela não é apenas uma forma de homenagem. É uma forma de manter viva a transformação que ela causou em mim. É uma forma de dizer para outras mães: “eu entendo. E você não está sozinha.”

O que a maternidade atípica me ensinou sobre aceitar e lutar

Para vocês que estão nessa jornada — no começo, no meio, ou há anos — eu queria falar sobre duas palavras que parecem opostas, mas na verdade são complementares: aceitar e lutar.

Aceitar a realidade do seu filho não é fraqueza. É o primeiro passo para encontrar a força que você nem sabia que tinha. É olhar para ele com honestidade e dizer: “esta é a nossa história. E eu vou aprender a caminhar nela.”

Aceitar não significa conformismo. Significa parar de gastar energia brigando com o que não pode ser mudado, para poder focar no que pode.

Lutar, sim, é preciso. Lutar por acesso a tratamentos adequados. Lutar por inclusão na escola, no parque, na sociedade. Lutar contra o preconceito velado e o capacitismo disfarçado de pena.

Mas lutar também é persistir no amor. É levantar no meio da noite mesmo quando o corpo pede para desistir. É buscar uma nova terapia quando a anterior não deu certo. É defender o direito do seu filho de ser visto com dignidade.

Aceitar e lutar não são opostos. São os dois pés que nos mantêm em pé na maternidade atípica.

Um recado prático para quem está cansada

Se você chegou até aqui e está se sentindo exausta, sobrecarregada, sem saber como seguir, eu quero te dizer algo com a honestidade de quem já esteve nesse lugar:

Não é sobre ser forte o tempo todo. É sobre ser humana.

É sobre sentir cansaço e ainda assim encontrar um fio de energia para mais um dia. É sobre chorar no banho e depois secar o rosto para dar um sorriso para seu filho. É sobre pedir ajuda sem se culpar por precisar dela.

A maternidade atípica pode ser solitária, mas ela não precisa ser vivida sozinha. Sua rede de apoio — por menor que seja — importa. Uma amiga que escuta sem julgar. Um profissional que trata seu filho com respeito. Um grupo online onde você pode desabafar sem medo.

Comece por onde der. Um passo de cada vez. Uma necessidade de cada vez.

Por que continuo contando essa história

A Marcella faleceu em 2022, mas a história dela não terminou. Ela continua em cada palavra que eu escrevo, em cada conversa que eu tenho com outras mães, em cada vez que eu lembro que o amor não precisa de perfeição para ser verdadeiro.

Continuar falando sobre maternidade atípica é minha forma de honrar o que ela me ensinou. É minha forma de estender a mão para quem está no mesmo caminho e dizer: “eu vejo você. Eu entendo sua luta. E sua história importa.”

A gratidão que eu sinto não apaga a saudade. Ela convive com ela. E é nessa convivência que eu encontro força para seguir — e para incentivar outras mães a seguirem também.

E agora, uma pergunta para você

Se você está nessa jornada, eu queria te fazer uma pergunta simples, mas importante: qual é a pequena vitória do seu filho que mais te encheu de orgulho nos últimos tempos?

Pode ser algo que parece insignificante para o mundo, mas que para você foi enorme. Pode ser um sorriso, um som, um movimento, um olhar.

Me conta nos comentários. Porque quando a gente compartilha essas pequenas vitórias, a gente lembra que não estamos sozinhas. E que, no meio de todas as dificuldades, ainda existem motivos para seguir em frente.

É isso que a maternidade atípica me ensinou: mesmo nos dias mais difíceis, sempre há algo pelo qual ser grata.

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