Tornar-me mãe atípica aos 19 anos transformou completamente meus planos de carreira, mas também me proporcionou habilidades únicas que moldaram minha trajetória profissional. Neste artigo, compartilho como a maternidade atípica não apenas coexistiu com minha vida profissional, mas a enriqueceu profundamente ao longo de três décadas no jornalismo e na comunicação.
O sonho da carreira no jornalismo e o plano original
Em 1987, aos 18 anos, eu tinha um sonho claro e vibrante: tornar-me jornalista profissional. Recém-formada no ensino médio em Diamantina, interior de Minas Gerais, havia traçado um plano que considerava perfeito: passaria seis meses com minha família antes de mudar para Belo Horizonte e iniciar minha vida universitária.
Naquela época, minha mente estava repleta de expectativas sobre os corredores da universidade, os novos amigos e as experiências que me levariam à tão sonhada carreira no jornalismo. Como saí da casa dos meus pais muito jovem para estudar, aquele semestre seria precioso para curtir cada minuto com minha família, que sempre foi meu porto seguro e fonte inesgotável de amor e apoio.
Eu já me imaginava fazendo novos amigos, percorrendo os corredores da universidade, mergulhando nos livros e nas experiências que me transformariam em uma jornalista. Contudo, a vida raramente segue o roteiro que planejamos, e às vezes, o destino nos reserva caminhos que, à primeira vista, parecem desvios, mas que se revelam as verdadeiras estradas para nosso propósito.
A gravidez inesperada e a mudança de planos
Surpreendentemente, em junho daquele ano, pouco antes da mudança planejada, descobri que estava grávida. Para uma jovem de 18 anos com a mente cheia de planos acadêmicos, a notícia foi devastadora – um tremor de terra que fez ruir as paredes do meu castelo de sonhos.
Inicialmente, tentei esconder a gravidez, temendo a reação da minha família. Eu, a única mulher entre cinco filhos, a “menina” da família, imaginava que meu pai fosse “morrer de desgosto”. Apesar dos meus medos infundados, quando a notícia se espalhou, recebi um apoio que transcendeu qualquer expectativa.
Ao contrário do que imaginei em meus piores pesadelos, ninguém “morreu de desgosto” – meu pai, aliás, está prestes a completar 94 anos, firme e forte, com a vitalidade de quem planeja o centenário! Claro, houve tristeza pela quebra de um ciclo planejado, mas o que prevaleceu foi o amor, o acolhimento e a certeza de que, não importa o caminho, a família estaria ali para enfrentar cada novo desafio.
O diagnóstico que transformou nossa história
Marcella nasceu em 28 de março de 1988, exatamente no mesmo dia e hora em que eu nasci, com 19 anos de diferença – uma coincidência que sempre me pareceu um sinal do destino, um elo cósmico que nos uniria de forma única e profunda.
seu primeiro choro foi intenso e diferente, alertando a equipe médica de que algo não estava como esperado. Aquele não era o choro comum da chegada ao mundo, mas um prenúncio de que a jornada dela seria diferente.
Consequentemente, meu sonho de ir para Belo Horizonte se realizou, mas de forma inesperada: não para frequentar a universidade, mas para acompanhar minha filha em uma maratona de exames.
Enfrentando a tetraparesia espástica: Os primeiros desafios
Pouco depois, veio o diagnóstico: tetraparesia espástica, uma forma severa de paralisia cerebral. Diante dessa realidade, senti o chão sumir. Eu, com apenas 19 anos, ainda aprendendo a ser adulta, de repente me tornei mãe de uma criança que precisaria de cuidados especiais por toda a vida.
A gravidade do diagnóstico e a dimensão da dependência que ela teria eram avassaladoras para qualquer adulto, imagine para uma quase adolescente que mal começara a trilhar seu próprio caminho. Nesse momento crucial, a teoria deu lugar à prática, e a vida, sem aviso, me convocou para um papel que exigiria toda minha força e dedicação.
Começou então uma sequência incessante de viagens entre Minas Novas e Belo Horizonte, de exames, de entradas e saídas de consultórios médicos. Aquele era meu novo “plano”, minha nova “universidade”: a escola da vida real, onde a maior matéria era o amor incondicional.
Tratamentos contínuos e a decisão de não desistir
Após o diagnóstico, era consenso médico que seriam necessários tratamentos contínuos de fisioterapia, fonoaudiologia e terapia ocupacional por toda a vida da minha filha. Era um desafio imenso, mas foi nesse ponto que a chama da minha resiliência se acendeu.
Foi aí que tomei a decisão mais importante: lutar. Decidi que nunca desistiria dela, nem de mim. Que honraria nossa história e a vida que nos foi concedida, não importa quão desafiadora ela se apresentasse. Nós não seríamos definidas pela dificuldade, mas pela coragem de enfrentá-la.
Marcella iniciou o tratamento com menos de um mês de vida. Era um bebê frágil, mas que já demonstrava uma força interior que me inspirava. Nesse período inicial, viajávamos todos os meses para Belo Horizonte, enfrentando horas de viagem, a espera em consultórios, a adaptação a um mundo que era, ao mesmo tempo, desgastante e cheio de pequenas esperanças.
Aos 15 anos, ela enfrentou um desafio particularmente difícil. Devido à dificuldade de deglutição, os médicos recomendaram uma cirurgia para colocação de sonda gástrica. Você não pode imaginar como sofri quando a vi entrando para o bloco cirúrgico. Passei todo o tempo da cirurgia lamentando o fato de que minha filha não iria mais sentir o sabor dos alimentos, aquela alegria do paladar que eu tanto apreciava nela.
Felizmente, essa dor também passou. A cirurgia foi um sucesso, um divisor de águas na vida de Marcella. Ela ficou visivelmente mais forte e mais confortável, pois se alimentava de forma mais eficaz. Não tinha mais vômitos nem aquela tosse preocupante que tanto me afligia.
Conciliando maternidade atípica e formação acadêmica
Quando Marcella completou três anos, e a rotina dos tratamentos já estava mais estabelecida, aquele sonho adormecido de estudar jornalismo voltou a pulsar dentro de mim. O desejo de ser jornalista ainda estava guardado, como um tesouro que eu não queria abandonar.
A essa altura, minha família demonstrou mais uma vez seu apoio incondicional. Meus pais se ofereceram para cuidar da neta pelo tempo necessário para que eu pudesse, finalmente, ir em busca do meu sonho. Aquela pessoinha já havia se tornado o centro dos meus dias, e eu sabia que sentiria muito sua falta, mas encarei o desafio como uma oportunidade única, um presente do destino.
Gradualmente, comecei a construir um novo caminho. A saudade era imensa, e eu visitava minha filha com a maior frequência possível, para alimentar a alma com seu sorriso. Mas sabia que aquela separação temporária era necessária para construirmos um futuro melhor.
De volta aos estudos: a conquista da vaga na PUC Minas
Cheguei a Belo Horizonte novamente, agora com um propósito diferente, e estudei com uma dedicação e paixão que eu não sabia que tinha. Foram quatro meses de cursinho e estudo intensivo até que a aprovação veio: passei na PUC Minas.
Meu sonho, aquele que parecia ter sido engolido pela gravidez inesperada e pelo diagnóstico, estava acontecendo, renascendo com muita força. Era como se cada obstáculo superado tivesse fortalecido ainda mais minha determinação.
Paralelamente a isso, consegui meu primeiro emprego como vendedora em um shopping center, conquistando minha independência financeira. Era minha primeira experiência de autonomia, um passo importante para a profissional que eu estava me tornando.
Depois de me adaptar à faculdade, de encontrar um ritmo e construir uma nova rotina, voltei à casa dos meus pais para buscar Marcella. Aquele era o passo seguinte, o próximo capítulo da nossa história. Desde então, ela passou a morar comigo e Belo Horizonte, e pudemos buscar o que havia de mais avançado em termos de reabilitação.
A jornada era dupla e por vezes, exaustiva – eu estudava e trabalhava. Com meu próprio esforço, conseguia pagar pelos tratamentos e pela faculdade. Não foi fácil, houve dias de cansaço extremo, de preocupações e incertezas. Mas meu maior apoio, além da minha família, veio da própria Marcella. Ela, com todas as suas limitações – não andava, não falava, não enxergava – tinha uma forma única de me dar força: ela sorria. Muito! E aquele sorriso era minha bússola, minha recarga diária, a certeza de que todo esforço valia a pena.
Como a maternidade atípica moldou minha carreira
Minha filha sempre foi meu guia, minha estrela-guia. Quando eu tinha dúvidas sobre algo, fosse uma decisão de estudo, uma escolha profissional ou um dilema pessoal, eu conversava com ela. Ela não respondia com palavras, porque não podia, mas sua resposta vinha de forma muito mais profunda e significativa: com um sorriso. Um sorriso que, para mim, era um “sim” claro, um “siga em frente”, um “você está no caminho certo”.
Ao longo dessa jornada, percebi que ser mãe atípica havia me equipado com habilidades extraordinárias que se tornaram diferenciais em minha carreira. A necessidade de entender tudo para cuidar da Marcella, de questionar, pesquisar e me posicionar diante de médicos renomados transformou minha postura profissional.
Habilidades desenvolvidas nos desafios da maternidade especial
Como resultado, desenvolvi uma capacidade única de argumentação, organização e determinação. Não era mais aquela menina que se tornou mãe de repente – era uma profissional com uma perspectiva diferenciada sobre desafios e soluções, com uma capacidade de adaptação forjada nas situações mais difíceis.
Me formei em Jornalismo com a certeza de que a vida havia me preparado de uma forma muito particular para aquela profissão. Posteriormente, fiz pós-graduação em Marketing, expandindo meus horizontes e minha capacidade de atuar na área de comunicação.
Cada sacrifício, cada noite sem dormir, cada momento de incerteza valeu a pena. A coragem de enfrentar os desafios, de conciliar a maternidade atípica com a busca pela sonhada faculdade, moldou a profissional e a mulher que sou hoje.
30 anos de carreira construída sem entrevistas formais
Em retrospectiva, após três décadas de carreira e depois de realizar muitos sonhos profissionais, avalio que ter sido mãe tão jovem, e mãe de uma criança com deficiência, moldou profundamente minha visão de mundo e minha postura profissional.
Curiosamente, em mais de 30 anos de carreira, passei por inúmeras empresas e, em nenhuma delas, fiz entrevista de emprego ou qualquer tipo de teste formal. Sempre fui referenciada, indicada por pessoas que gostavam do meu trabalho, que confiavam na minha capacidade e no meu profissionalismo.
Isso pode soar arrogante, mas não é. É apenas a constatação de muito tempo de estrada, de uma construção sólida baseada em confiança. Tive erros e acertos, como todo mundo, mas é gratificante ser lembrada mais pelos acertos.
Trabalhei em diversas empresas, contribuindo ativamente nos processos de comunicação interna e externa, e me sinto realizada na minha área de atuação. Construí uma carreira pautada no compromisso com as pessoas, na comunicação clara e na busca incessante por soluções – características que nasceram e se fortaleceram ao lado da minha filha.
O legado na minha vida pessoal e profissional
Com o passar do tempo, a vida continuou a se desenrolar com novas surpresas e bênçãos. Casei-me com Fernando, um homem que não apenas me amava, mas que também abraçou Marcella com amor incondicional desde o primeiro dia, tratando-a como sua própria filha.
Logo depois, tivemos outra filha, a Ana. E assim, formamos uma família muito unida, construída sobre alicerces de afeto, respeito e muita paciência. Como toda família, tivemos e temos nossos problemas e desafios, mas sempre superados com muito amor envolvido.
Meu marido sempre tratou Marcella com uma ternura e um carinho que só um verdadeiro pai pode oferecer, e isso me enche de gratidão e paz. A experiência da maternidade atípica nos ensinou a valorizar cada momento, a encontrar beleza nas pequenas conquistas e a celebrar a vida em suas mais diversas manifestações.
Transformando a dor da perda em um novo propósito
Marcella foi morar no céu em junho de 2022, aos 34 anos de idade. Ela partiu em paz, como viveu. Uma partida serena, sem agonia, que, de alguma forma, refletiu a leveza e a resiliência com que ela sempre encarou a vida.
Sofri tanto que não consigo descrever em palavras a dimensão daquele vazio, daquele silêncio que se instalou. Foi uma dor física e emocional que me atravessou por completo, reabrindo feridas e testando os limites da minha fé. A vida, mais uma vez, me convidava a um novo recomeço, a um novo “sem”.
No entanto, quase dois anos depois, sinto que a dor mais aguda, aquela que dilacera, está gradualmente dando lugar à saudade. Uma saudade que se transforma, que aos poucos ganha contornos de ternura e gratidão.
Lembro dela todos os dias, sem exceção. E sou imensamente grata pela oportunidade indescritível de ter sido mãe de um anjo, de ter tido o privilégio de fazer a jornada ao lado dela, de ter sido tocada por sua luz e sua sabedoria silenciosa por 34 anos. A dor se tornou uma parte de quem sou, mas a gratidão e o amor transbordam e me impulsionam a seguir em frente.
O blog como extensão da minha jornada
A vida, com suas curvas e reviravoltas, sempre nos convida a novas descobertas. Atualmente, continuo atuando com assessoria de comunicação, uma paixão que me acompanha há décadas, e faço um pouco de tudo nessa área vasta e dinâmica.
Paralelamente, senti que era tempo de expandir, de compartilhar. Resolvi criar o blog “Colecionando Instantes” com um propósito que se alinha perfeitamente à minha trajetória: contar histórias – da Marcella, do cotidiano, da comunicação e de tantas outras experiências que moldaram quem sou.
Este espaço virtual tornou-se uma forma de desenvolver ainda mais minha habilidade com a escrita, de registrar memórias e, quem sabe, tocar outros corações. É um espaço para celebrar a vida em suas mais variadas formas, para refletir sobre os aprendizados, para compartilhar as alegrias e as dores, e para mostrar que, mesmo diante dos maiores desafios, a beleza e o amor sempre encontram um caminho.
Um espaço para compartilhar histórias e experiências
O blog é meu novo capítulo, onde a comunicação se une à essência de quem sou, e onde a memória da Marcella continua a brilhar como a estrela principal, inspirando cada palavra que escrevo. É uma forma de manter vivo seu legado, de transformar a dor da perda em algo construtivo e significativo.
A vida é um tecido complexo, feito de fios fortes e frágeis, de cores vibrantes e tons suaves. Cada experiência, cada pessoa que cruza nosso caminho, adiciona uma nova textura a esse tecido. Minha jornada com Marcella, embora única, carrega em si temas universais: a força da maternidade atípica, a capacidade de se adaptar, a busca por um propósito, a resiliência do espírito humano e, acima de tudo, o poder transformador do amor.
Que história em sua vida te marcou profundamente, moldando a pessoa que você é hoje? Qual foi o desafio que, a princípio, parecia um fim, mas se revelou um novo começo? Compartilhe seus instantes e suas reflexões nos comentários. Juntos, colecionamos mais do que histórias; colecionamos a própria essência da vida.
Nossa!!!… Como não pensei nisso!!
Você Claudinha, tem cacife para ser uma baita blogueira, uma baita influencer, pela baita comunicadora que sempre foi e é!!!…
Abraços minha amiga!
Hahaha. Pode pensar nisso agora e aparecer sempre por aqui.
Boa Claudinha!!!.. Você é uma baita comunicadora e será uma baita influencer, no melhor sentido que essa palavra possa ter, para os leitores e seguidores que virão!!!…
Abraços
Obrigada, Braga! Te espero às segundas.
Uauuuu!!!! Como uma pessoa pode ser tão boa no que faz…não consigo parar de ler. Só continue. PARABÉNS!
Que comentário gostoso de ler. Venha sempre tomar o seu café comigo. Beijo!!!
Oi Cláudia! A gente se conhece muito pouco pessoalmente, mas sempre nutri uma enorme admiração por você, pela sua história e da sua filha, que eu imaginava que fosse muito bonita…. mesmo com um olhar à distância…
Mas, esse seu depoimento, feito assim, de uma maneira tão segura e verdadeira…desprendida…. desnuda de quaisquer preconceitos e estereótipos da sociedade, me fez ver melhor a Pessoa, o Ser Humano, a Mãe que você desde muito cedo, ousou Ser!!!…
Fiquei deveras Emocionado!!! …. mesmo porque, passou um filme na minha cabeça, já que tive o privilégio de conviver com a minha esposa Vania Beatriz, que me “ensinou” adentrar e mais do que isso, entender e Amar esse universo de Pessoas tão Especiais!!! …como Marcela!!!
Abraçaço!!!
Obrigada, Dalton! Vamos nos conhecer melhor por aqui e na vida também. Afinal, não estamos tão longe assim, um do outro.
Me emocionei varias vezes lendo essa linda história, quanta superação!Tenho muito orgulho de você!Hoje o céu tem uma estrela que brilha forte por nós.Abraço bem apertado.
Obrigada, minha querida! Volte sempre aqui. Nossa estrelinha será sempre lembrada.