Desde que me entendo por gente, eu e meus irmãos o chamamos de Paim. Assim mesmo, com “m” no final. Não “Painho”, não “Pai”. É Paim. Não sei dizer ao certo a origem exata desse nome carinhoso, que se tornou uma marca registrada da nossa família. O importante é que virou o nosso jeito, um jeitinho único e cheio de afeto de nos referirmos ao homem que é a nossa rocha, o nosso guia, a nossa inspiração. Este mês, esse nosso Paim completa impressionantes 94 anos de vida. E isso, por si só, é motivo mais do que suficiente para mim, que criei o blog com o desejo de colecionar instantes, finalmente escrever sobre ele. Algo que venho querendo fazer desde o primeiro dia, mas que só agora, com a maturidade e a admiração cada vez mais profunda, sinto que posso tentar colocar em palavras.
O paim e a arte de construir um lar: uma vida dedicada à família
Paim é a personificação de dedicação. Uma pessoa de valores inegociáveis, que basicamente viveu e vive para a família. Para nós, filhos, netos e bisnetos, a existência dele é a prova viva de que o maior legado que um homem pode deixar não são bens materiais ou grandes fortunas, mas sim o amor, a presença e a construção de um ambiente de acolhimento. Acredito que muito dessa sua entrega e da sua vocação quase que em tempo integral para a paternidade e para o papel de pilar da família tenha raízes profundas em sua própria história.
A ausência que gerou uma presença plena
O meu avô, pai de Paim, faleceu quando ele ainda era um bebê, uma ausência precoce que, para nós, nunca se manifestou de forma visível como uma lacuna em sua personalidade. Mas, às vezes, penso que essa perda tão marcante e sentida desde os primeiros meses pesou tanto em sua alma que ele, de alguma forma inconsciente, escolheu viver a paternidade de uma maneira plena, preenchendo qualquer vazio que a vida lhe impôs. Ele não queria que seus filhos sentissem o que ele sentiu. E conseguiu. Ele se tornou a figura paterna presente, forte e amorosa que muitos de nós sonhamos em ter.
Duas casas, um só coração: o legado de um verdadeiro lar
Juntos, ele e minha mãe – a outra metade dessa equação perfeita, a força silenciosa que complementa tudo o que somos – fizeram da nossa casa não apenas um endereço, mas um verdadeiro lar. Um daqueles lugares para onde a gente sempre quer voltar, independentemente de onde a vida nos tenha levado. Somos cinco filhos, todos já passamos dos 50 anos, com nossas próprias famílias e rotinas estabelecidas. E, acreditem, até hoje, quando nos referimos ao imóvel onde eles moram, dizemos com uma naturalidade que só o afeto constrói: “lá em casa”.
É uma coisa engraçada, mas muito verdadeira. Sou muito feliz na minha casa, com a família que construí, com meu marido e a minha filha. Mas a casa dos meus pais, o ninho que Paim e minha mãe ergueram, continua sendo a minha também. Um lugar onde me sinto imediatamente bem, completamente à vontade, e sou acolhida com um amor que transcende o tempo. Então, sim, tenho a imensa felicidade e a gratidão de dizer que tenho duas casas: uma que construí, e outra que me construiu.
A hospitalidade de Paim e da minha mãe é lendária. Até os dias de hoje, os amigos da família, os vizinhos, qualquer pessoa que passe pela porta é bem recebida por lá, mesmo que a gente, os filhos, não estejamos por perto. A casa é um centro de convívio, um ponto de encontro de gerações. E um dos rituais mais queridos e curiosos ao chegar na “minha casa” é ter que responder imediatamente a uma pegadinha que Paim faz com todo mundo que o visita. Ele pergunta, com aquele brilho nos olhos e um sorriso arteiro: “Quanto é 7, 7, 14 com 10?”. A inocência da pergunta esconde a malandragem do nosso Paim. Eu usei vírgulas aqui para facilitar para você, leitor. Pense bem e deixe sua resposta nos comentários. Será que você vai acertar? É uma forma divertida e muito dele de acolher e de se conectar com as pessoas.
O matemático e o contador de histórias: uma mente curiosa e brincalhona
Ele trabalhou por anos no Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística, o IBGE. E, de tanto contar gente em recenseamentos que o levaram a conhecer os cantos mais variados do nosso estado, ele pegou um gosto todo especial por operações matemáticas. Não que ele fosse um gênio dos números, mas a lógica e o desafio de desvendar problemas, mesmo que simples, sempre o atraíram. Era ele quem, pacientemente, sentava conosco na mesa da cozinha ou da sala para nos ajudar com as tarefas de casa quando estávamos no ensino fundamental. E, se hoje eu tenho alguma afinidade com números ou com a organização de ideias, parte disso certamente veio das aulas e do incentivo dele.
As andanças do recenseador e as histórias que a vida contou
Mas Paim não é apenas um homem de números; ele é um contador de histórias nato. E suas histórias, contadas com vivacidade e um brilho nos olhos, são comumente as suas próprias histórias. Ele fala com uma alegria contagiante das muitas cidades e vilarejos que conheceu por causa dos recenseamentos nos quais trabalhou. Ouvir Paim remonta a um tempo de Brasil diferente, de estradas de terra, de comunidades isoladas e de uma simplicidade que hoje parece quase utópica. Ele nos transporta para esses lugares, nos apresenta às figuras excêntricas que conheceu, aos causos engraçados e aos aprendizados de vida colhidos em cada jornada.
A vivência como recenseador moldou muito do seu caráter. Ele aprendeu a se relacionar com todo tipo de gente, a observar a vida em suas nuances, a valorizar a diversidade cultural e a ter uma profunda empatia pelas diferentes realidades. E essa empatia se estendeu à sua própria família.
O avô e a herança do carinho
Órfão muito cedo, Paim foi criado com a ajuda fundamental dos avós paternos. E até hoje, com mais de 90 anos, meu pai fala do avô com um carinho tão grande, com uma voz embargada e olhos marejados, que parece a criança que um dia foi, revivendo aqueles momentos de afeto e segurança. É como se a memória daquele homem bondoso e acolhedor fosse um bálsamo eterno para ele. Essa relação com o avô parece ter deixado uma marca profunda nele, ensinando-lhe o valor do cuidado, da presença e da generosidade.
Dessa convivência tão próxima com nosso pai temos uma herança curiosa: o hábito de Paim usar tratamentos como “compadre Zequinha”, “compadre Dé” para se referir aos amigos padrinhos de alguém ou pai de algum afilhado. Nós, crianças da época, passávamos tanto tempo com ele e ouvindo-o usar esses termos que, sem perceber, adquirimos o hábito de usar o mesmo tratamento. A gente repetia como se os compadres fossem nossos, sem nem entender muito bem a formalidade da “compadria”, mas absorvendo a familiaridade e o carinho que a palavra carregava. É uma tradição que ele nos passou e que hoje, quando ouvimos, nos remete instantaneamente à nossa infância.
O anjo da guarda das traquinagens: sabedoria, leveza e um amor que protege
Não sei por que razão, quando éramos crianças, tínhamos mais “medo” dele do que da minha mãe. Uso aspas no medo porque, na verdade, não era um medo paralisante, mas um respeito quase reverencial. Isso é irônico, porque Paim é manso até dizer chega, um homem de fala serena e gestos calmos. Minha mãe, por outro lado, era a estrategista, a disciplinadora da casa, e sabia ser firme quando precisava. Mas, graças a Paim, juro, eu nunca apanhei da minha mãe (rs). Todas as vezes que isso estava para acontecer, ele chegava bem na hora e impedia. Era como se ele tivesse um sexto sentido para o perigo, um radar para as traquinagens que me levariam a um castigo físico. Ele chegava no momento certo, feito um anjo da guarda que se materializava para desarmar a situação, e apenas com um olhar, minha mãe entendia que não poderia seguir com o castigo. Até hoje minha ela se lembra, com certa frustração divertida, que nunca me bateu por falta de oportunidade – a oportunidade era sempre interceptada por Paim!
O charme de ‘pertencer’ a três cidades
Paim é um homem inteligente, educado, e possui um algum atributo que o torna muito querido nas três cidades que fazem parte da nossa história e da nossa infância. Primeiro, Turmalina, onde ele nasceu e deu seus primeiros passos. Depois, Virgem da Lapa, para onde foi trabalhar no IBGE, onde conheceu minha mãe, se casou e teve os cinco filhos – o berço da nossa família. E, por fim, Minas Novas, para onde toda a família se mudou há exatos 50 anos, e onde ele fincou raízes e se tornou uma figura respeitada e amada na comunidade. Em todas essas cidades, Paim deixou um rastro de gentileza, sabedoria e bom humor. Ele tem a capacidade de se conectar com as pessoas de forma genuína, com um sorriso fácil e uma palavra amiga.
A meta dos cem anos: um brinde à resiliência e à esperança
Ele é brincalhão, como eu já disse, e quer muito viver até os cem anos. Não é apenas um desejo, mas quase uma meta de vida, dita com convicção e um quê de desafio. Em 2011, quando completou 80 anos, fizemos uma festa para ele. Foi um evento lindo, com toda a família reunida. Somos católicos, e antes da comilança e da celebração festiva, teve uma linda celebração religiosa. Ao final, o padre, sabendo do carisma e da presença do Paim, pediu que ele dissesse algumas palavras. Sem a menor cerimônia ou timidez, ele pegou o microfone, agradeceu a presença de todos com a sua voz tranquila e, para surpresa e riso da maioria, convidou a todos para o seu centenário! Uma ousadia e um otimismo que só ele tem.
Paim tem um orgulho imenso de ser o mais longevo dos homens da família Machado. É uma espécie de honra ancestral. E há uma razão para essa confiança toda: sua mãe, minha avó, viveu incríveis 100 anos. Então, penso que ele também chega lá. Essa longevidade, essa resiliência, não é apenas um dado genético, mas também reflexo de uma vida vivida com propósito, com amor e com um otimismo contagiante. Eu espero e agradeço a Deus todos os dias por ele estar tão bem, lúcido e ativo, para que possamos continuar colecionando instantes com ele por muitos e muitos anos.
O inverno da vida: sabedoria, sensibilidade e a beleza do tempo passado
Com mais de 90 anos, é natural que Paim não seja mais o mesmo homem vigoroso de tempos atrás. Ele está no inverno da vida, uma estação que, embora traga alguns desafios, também carrega uma beleza única, a beleza da sabedoria acumulada e da delicadeza da memória. Ele anda meio impaciente às vezes, um pouco mais teimoso do que antes, e frequentemente esquece algo do presente imediato. Mas, apesar dessas pequenas nuances da idade, ele ainda transmite o respeito e a presença de sempre. Sua essência, sua bondade, permanecem intactas.
As lágrimas da memória e o filme da vida
Uma das coisas que mais me toca nessa fase é o quanto ele tem andado sensível. De repente, ao lembrar do avô, da sua mãe, ou dos tios que ajudaram minha avó em sua criação após a morte do pai dele, seus olhos se enchem de lágrimas. São lágrimas de saudade, de gratidão, de reconhecimento de um passado que o moldou. Essa sensibilidade é um lembrete de que, por trás da fachada de homem forte e resiliente, existe um coração imenso, cheio de memórias que, mesmo passadas, ainda pulsam com a força de um presente eterno.
Ele passa muito tempo na sala de televisão, um pouco mais calado, conversando muito menos do que antes sobre o dia a dia. Mas experimente dar atenção a ele, puxar uma conversa sobre o passado. As lembranças vêm como uma enxurrada. Ele fala sobre a infância, os tempos de trabalho no IBGE, as dificuldades superadas, as alegrias simples, as pessoas que marcaram sua vida. E como ele gosta de falar do passado! É como se cada história contada o fizesse reviver aqueles momentos, trazendo de volta o brilho aos olhos e a vivacidade à voz. É a forma dele de se reconectar, de ensinar, de manter suas raízes vivas.
A saúde de ferro e a inspiração vivia
E a saúde dele? De ferro. Não parece a idade que tem. Sobe e desce as escadas de casa várias vezes ao dia, faz suas refeições sozinho, participa das conversas e se mantém surpreendentemente forte para quase um século de vida. Essa resiliência física e mental é um testamento de uma vida bem vivida, com poucas preocupações, muita simplicidade e, claro, um carinho imenso que o cerca.
O legado e o desejo: quero ser como meu pai
Quis fazer um retrato do meu pai aqui, uma homenagem à altura de tudo que ele representa. E acabei me emocionando novamente ao longo da escrita. Passa um filme na cabeça ao lembrar de tantas histórias boas, de tantos momentos de acolhimento, de sabedoria silenciosa, de amor incondicional.
Deve ser bom chegar a uma idade tão avançada e ser lembrado só por coisas boas, por um legado de integridade, carinho e dedicação à família. Por ter construído um lar que se mantém como um farol para todos nós. Por ter sido um pai presente, um anjo da guarda, um contador de histórias e um exemplo de vida.
Minha grande aspiração na vida é essa: quero ser como meu pai. Quero ter a sua resiliência, a sua simplicidade, a sua capacidade de amar e de fazer da família o centro de tudo. Quero, um dia, ter a certeza de que deixei um legado de afeto e um porto seguro para os meus. Que a minha “casa”, assim como a dele, seja sempre o lugar para onde se queira voltar.
Sua própria história de vida e amor: um convite à reflexão
E você, leitor? Qual figura na sua vida te inspira a ser uma pessoa melhor, a construir um lar de afeto? Quais são as histórias que seus pais, avós ou outras figuras importantes te contam, e que você guarda com carinho? Já parou para pensar na importância de registrar esses instantes, essas memórias que nos moldam?
A vida é feita de momentos, e a nossa história é construída pelas pessoas que amamos e que nos amam. Celebre essas figuras, registre seus ensinamentos, e compartilhe suas histórias. Afinal, colecionar instantes é também perpetuar os legados de amor que nos foram deixados.
Deixe seus comentários e compartilhe um pouco da sua própria história. Adoraria saber!
Caiu um cisco nos meus olhos…
Eu também me emocionei pra escrever.