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Outubro rosa e a primavera que nasce depois do medo

Outubro é o mês em que a primavera se espalha pelas calçadas e em que o laço rosa toma conta dos feeds. Como profissional de comunicação, sempre estive do lado de cá das campanhas de conscientização. Preparei materiais, organizei ações, falei de prevenção com convicção. Até que, em 2019, o outubro rosa bateu na minha porta. Desta vez, como personagem. O diagnóstico chegou justamente no mês em que eu mais falava dele.

O mês em que a ficha caiu

O meu tumor era visível. Ficava na região do tórax, numa área de bastante osso, fora da mama. Eu convivia com ele, pegava nele, e achava que era uma bolinha de gordura. Nunca dei a devida atenção.

Um dia, no consultório da minha dermatologista, pedi: “Doutora, por favor, tire essa bolinha de gordura para mim”. Ela respondeu: “Tiro sim, mas faça um ultrassom primeiro, para confirmarmos que é uma bolinha de gordura”. Eu jamais imaginei que, não sendo, poderia ser um câncer. Tanto é que demorei quase seis meses para fazer o exame.

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O que me chamou a atenção foi a frase do médico que fez o ultrassom, no fim do exame: “Você vai ter que levar seu exame ao seu médico e provavelmente vai precisar de cirurgia”. Foi aí, e só aí, com o resultado nas mãos, que percebi que poderia ser algo grave. Foi a primeira vez que ouvi falar em Bi-rads, um sistema de pontuação usado para avaliar o risco de câncer. Em seguida, procurei uma mastologista. E sim, veio o diagnóstico.

Conto isso com um detalhe: por não dar atenção, eu não me prejudiquei. Mas poderia ter me prejudicado. E pode prejudicar outras pessoas. Por isso, se existe algo diferente no seu corpo, não espere. Investigue.

O estranho é que o primeiro medo não foi o que todo mundo imagina. Eu juro. Tive medo de ficar careca antes de ter medo de morrer. Só dias depois, quando a ficha realmente caiu, é que o medo maior chegou. E descobri, conversando com outras mulheres, que não estou sozinha nisso. O cabelo é a nossa feminilidade à mostra, e a ideia de perdê-lo dói de um jeito difícil de explicar.

Um tumor de crescimento lento

O meu caso tinha uma boa notícia escondida. O tumor era de grau I, de crescimento lento. A primeira cirurgia foi um sucesso. Mas, quatorze dias depois, veio o resultado da biópsia, mostrando que havia ficado margem, e lá fui eu de novo para o centro cirúrgico. Foram duas cirurgias, vinte sessões de radioterapia e cinco anos de tamoxifeno. Não precisei de quimio, e o cabelo ficou no lugar.

A doença sobre a qual ninguém sabe conversar

Tive uma rede de apoio enorme, e por isso sou grata todos os dias. Mas vou confessar algo que só quem passou por isso entende. O câncer é uma doença solitária. Ela assusta tanto as pessoas que elas não sabem o que falar para a gente. Algumas somem. Outras falam demais. E a gente aprende a se proteger, a dividir pouco a fase mais difícil.

Aprendi também que não existe vergonha na cicatriz. Hoje eu a olho com orgulho. Ela é a prova de que o meu corpo lutou e venceu.

A primavera que veio depois

Em 2024, completei os cinco anos de Tamoxifeno e ouvi a palavra que eu esperava. Curada. Foi como ver a primeira flor nascer depois de um inverno comprido.

Por isso, para mim, primavera e outubro rosa andam juntos. Os dois falam de recomeço, de vida que insiste, de beleza que nasce justamente onde a gente achava que só havia medo.

O recado que ficou

Se você é mulher, cuide-se. Faça o exame, toque as mamas, não se esqueça de você. E se o diagnóstico chegar, cuide-se mais ainda. Você é a pessoa mais importante da sua vida. E, para mim, a fé em Deus foi o chão que sustentou tudo isso, porque só Ele sabe de todas as coisas.

A primavera vem todo ano, e ela sempre nos lembra. Depois do inverno mais duro da vida, as flores voltam. Às vezes, a gente é a própria flor.

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