Eu queria escrever este texto sem amargura — e é exatamente por isso que preciso escrever com verdade. Porque existe um tipo de tristeza que não nasce do pessimismo, mas do choque. Do espanto. De olhar para o mundo e pensar: como foi que isso se tornou possível?
Estamos na quaresma, esse tempo tão simbólico para quem carrega fé no peito — seja ela vivida dentro de uma religião ou na forma mais simples de espiritualidade: aquela que nos puxa para dentro, nos convida a rever escolhas, a corrigir rumos, a aparar arestas. A quaresma não é um “ritual distante”. Ela é um espelho. E um chamado.
E foi com esse espelho diante de mim que eu vi, em um telejornal, uma cena devastadora.
Uma mulher jovem, em plena luz do dia, numa cidade pequena do interior de Minas Gerais, se ofereceu para carregar as sacolas de compras de um idoso de 92 anos. Ele andava com dificuldade. Parecia frágil, como a vida fica quando o corpo já percorreu quase um século.
A cena começou como deveria começar: com um gesto de cuidado. Mas, em segundos, virou um horror. Ela avançou sobre ele, furtou a carteira do bolso da camisa e, quando ele tentou recuperar o que era seu, ela o empurrou. Ele caiu. E ficou ali: sozinho, no chão, sem conseguir se levantar.
Eu não sei se você já sentiu isso — esse aperto que dá no peito quando a indignação encontra a compaixão. Eu senti. Senti de um jeito profundo. Porque aquela cena não era apenas sobre um crime. Era sobre um tipo de desumanidade que assusta. Um tipo de distância — da fé, da bondade, do espírito de ajuda — que parece crescer em algumas pessoas. E que, quando cresce, machuca os mais vulneráveis primeiro.
A violência contra idosos é um problema de segurança e também de consciência
Quando a gente fala em violência contra idosos, quase sempre a conversa vai para o lugar óbvio: “falta de policiamento”, “falta de leis”, “a impunidade”. E tudo isso importa, sim. Mas existe um ponto anterior. Um ponto mais incômodo.
Porque para empurrar um senhor de 92 anos e deixá-lo caído na rua, é preciso que algo tenha se rompido por dentro. Um freio moral. Um senso mínimo de humanidade. É como se a pessoa não estivesse vendo um ser humano — mas um alvo. Um corpo lento. Um bolso fácil. Uma oportunidade.
E é aqui que a quaresma me atravessa com força: quem eu estou escolhendo ser quando ninguém está olhando? Quem nós estamos escolhendo ser como sociedade?
O idoso vira invisível — e isso abre caminho para o pior
A maior crueldade, às vezes, não é a agressão direta. É a soma de pequenas negligências: a pressa que empurra, a grosseria que humilha, a piada que diminui, o olhar que passa reto.
Quando o idoso se torna invisível, ele fica mais vulnerável a tudo: golpes, furtos, maus-tratos, abandono. E não é porque ele “não se cuida”. É porque o mundo deixa de cuidar.
E o mundo, aqui, não é uma entidade abstrata. O mundo é a gente.
Por que isso acontece? (sem justificar, mas tentando entender)
Eu não acredito que todo mundo tenha “piorado”. Eu não acredito que a bondade tenha desaparecido. Eu vejo, todos os dias, gestos lindos de gente que ajuda, que acolhe, que se doa. Mas eu também vejo uma erosão — em algumas pessoas — de três coisas fundamentais:
1) A pressa que desumaniza
A pressa transforma pessoas em obstáculos. E, quando alguém vira obstáculo, a empatia diminui. A paciência encurta. O cuidado vira “perda de tempo”. É um terreno fértil para o desrespeito.
2) O cinismo que normaliza
Quando a violência vira rotina no noticiário, a gente corre o risco de se acostumar. E o que a gente normaliza, a gente tolera. E o que a gente tolera, cresce.
3) A fé desconectada do cotidiano
Fé, bondade e espírito de ajuda são coisas que precisam de prática. Se a fé vira só identidade — “eu sou isso”, “eu pertenço àquilo” — mas não vira gesto, ela perde o sentido. E a quaresma, justamente, nos convida a juntar de novo o que se separou: crença e atitude.
Eu vi meu pai naquela cena — e foi aí que doeu mais
O que me chocou naquela reportagem não foi só a agressão. Foi o que veio depois: o idoso no chão. Caído. Sem ajuda imediata. Como se a rua tivesse engolido o homem e devolvido apenas a imagem de alguém que não consegue se levantar.
Eu pensei no meu pai, que hoje tem 95 anos. Pensei nele andando devagar, com a dignidade silenciosa de quem já viveu muito. Pensei: se fosse ele, naquela rua, naquela situação, ele também não conseguiria se defender.
E aí eu entendi por que tanta gente chora quando vê uma violência contra um idoso: porque a gente não vê “um idoso”. A gente vê o próprio pai, a própria mãe, o avô, a avó, um vizinho querido. E, no fundo, a gente vê um retrato do nosso futuro.
Envelhecer não deveria ser um risco
Envelhecer deveria ser colheita. De carinho, de respeito, de reconhecimento. Não um estado de alerta permanente, como se sair na rua fosse uma aposta.
Mas a realidade tem mostrado o contrário: há idosos sendo enganados por “ajuda” falsa, sendo pressionados por empréstimos, sendo roubados por quem se aproxima com voz mansa. O que deveria ser cuidado vira armadilha.
E isso precisa ser dito com todas as letras: a maldade costuma vir fantasiada de gentileza.
O que a quaresma tem a ver com isso?
Talvez o que mais doa seja perceber que, em algumas pessoas, a fé virou um acessório. Uma palavra bonita. Uma identidade. E não uma prática.
Porque fé de verdade — daquelas que transformam — não é só ir a um lugar sagrado. É agir de um jeito sagrado no cotidiano. É viver a espiritualidade como responsabilidade.
A quaresma é, para mim, um convite a isso: menos aparência, mais essência.
Perguntas que incomodam (e que fazem bem)
- Eu ajudo quem precisa ou só me emociono com notícia triste?
- Eu respeito os idosos ou só digo que respeito?
- Eu protejo, oriento, acompanho… ou sigo achando que “não é comigo”?
Porque a pergunta mais dura é essa: quem tem 92 anos não deveria precisar temer a bondade dos outros.
O mundo não precisa de mais cinismo. Precisa de gente que escolha o bem.
Eu sei: há muita gente boa. Há gestos lindos acontecendo todos os dias, silenciosamente. Mas a gente não pode fechar os olhos para o que também está acontecendo.
Porque quando uma pessoa empurra um senhor de 92 anos e o deixa no chão, o recado é duro: tem gente se afastando do humano.
E é por isso que este texto é um chamado. Não para apontar dedos com raiva. Mas para lembrar o óbvio — que anda ficando esquecido: idosos não são obstáculos, são história viva.
Se a quaresma é tempo de conversão, talvez a nossa conversão mais urgente seja essa: voltar a enxergar o outro. Principalmente o mais frágil.
E escolher, com intenção, aquilo que sustenta um mundo: a fé que vira gesto, a bondade que vira ação, o cuidado que vira cultura.