A vida é uma tapeçaria complexa, tecida com fios de acertos e erros, de momentos de glória e de tropeços inesperados. Cada nó, cada emaranhado, por mais doloroso que pareça no momento, contribui para a beleza e a força do desenho final. Hoje, ao olhar para trás, percebo que um dos nós mais apertados na minha própria tapeçaria profissional – um erro que, na época, me pareceu uma humilhação pública – foi, na verdade, o ponto de virada que me ensinou a ocupar meu espaço no mundo, a liderar com confiança e a transformar a insegurança em uma bússola para a maturidade.
Os primeiros passos de uma jornalista recém-formada: entre sonhos e inseguranças
Minha jornada profissional começou com uma mistura de entusiasmo e uma pitada de apreensão. Eu sempre fui uma pessoa de comunicação, falante por natureza, com uma curiosidade insaciável e uma paixão por contar histórias. A timidez, se é que um dia existiu, foi uma fase breve e passageira da infância, talvez um leve desconforto ao me adaptar a uma escola nova, a amigos novos, a uma cidade diferente. Mas essa fase logo deu lugar a uma personalidade extrovertida e proativa. No entanto, apesar de não ser tímida, carregava comigo uma preocupação, quase um fardo invisível: o medo de ocupar um espaço que não me pertencia. Essa insegurança sutil, mas persistente, seria testada de forma abrupta e inesquecível em um dos momentos mais cruciais da minha jovem carreira.
A jovem jornalista e a busca por um lugar no mundo
Desde muito cedo, como mencionei em outras histórias aqui no blog, meu sonho era ser jornalista. Eu me imaginava nos corredores de grandes redações, com a caneta na mão e a verdade na ponta da língua. A formação em Jornalismo não era apenas um diploma; era a concretização de um propósito, a ferramenta para dar voz a quem não tinha, para informar, para conectar. A paixão pela comunicação sempre pulsou forte em mim, e a ideia de que eu poderia, através das palavras, influenciar e transformar, era o que me movia.
O início em um ambiente de aprendizado e desafios
Minha entrada no mercado de trabalho foi no Conselho Regional de Engenharia e Agronomia (Crea-MG). Comecei como estagiária, absorvendo cada ensinamento, cada dinâmica do ambiente corporativo e da assessoria de imprensa. Assim que me formei, a transição para a contratação como jornalista foi natural e rápida. Eu me dedicava, aprendia, e, modéstia à parte, desempenhava bem o meu trabalho. O ambiente do Crea-MG, com sua seriedade e a importância de sua missão reguladora, era um terreno fértil para uma jornalista em início de carreira. Eu me sentia útil, valorizada, e a cada dia, mais confiante nas minhas habilidades.
A essência da comunicação
Como já compartilhei no post “Comunicar para Transformar”, a comunicação para mim nunca foi apenas sobre transmitir informações. É sobre construir pontes, sobre esclarecer, sobre defender a verdade e a imagem de uma instituição, mas sempre com transparência. Se eu não fui para uma grande revista, como sonhava, faria o melhor trabalho possível na assessoria de imprensa. E era exatamente isso que eu estava fazendo no Crea-MG: construindo uma comunicação sólida, baseada na ética e na clareza, preparando-me para os desafios que viriam. Mal sabia eu que o maior deles estava prestes a bater à porta, e que ele me ensinaria, da forma mais dura, a importância de assumir meu lugar.
O caos do Palace II: Quando a crise bateu à porta
O ano era 1998. A jornalista responsável pela comunicação do Crea-MG estava de férias, e eu, recém-contratada, estava à frente da assessoria. A rotina seguia seu curso, até que uma notícia vinda do Rio de Janeiro abalou o país e, consequentemente, o nosso Conselho. O edifício Palace II, um prédio residencial de luxo na Barra da Tijuca, havia desmoronado pela segunda vez.
A tragédia que chocou o Brasil
A tragédia do Palace II foi um evento de proporções nacionais. Na semana anterior, um domingo de Carnaval, uma parte do edifício já havia cedido, levando ao chão 44 apartamentos. Oito pessoas morreram soterradas, e 176 moradores ficaram desabrigados, suas vidas viradas de cabeça para baixo em questão de segundos. A comoção era imensa, e a imprensa, naturalmente, estava em polvorosa, buscando respostas, culpados, explicações. A engenharia civil, uma área que deveria garantir segurança e solidez, estava sob os holofotes da crítica e da desconfiança pública.
A repercussão em minas: Um engenheiro mineiro no centro da polêmica
O que tornou essa tragédia particularmente relevante para o Crea-MG foi o fato de que o prédio havia sido construído por um engenheiro de Minas Gerais, que, à época, era também deputado federal. Para piorar a situação, na segunda vez que o prédio desabou – um bloco inteiro, 30 minutos após um laudo permitir a volta dos moradores para pegarem seus pertences –, os engenheiros que emitiram esse laudo também eram mineiros. Foi um verdadeiro “Deus nos acuda” no Conselho. A imprensa do Brasil inteiro, sedenta por informações e por um posicionamento oficial, voltou seus olhos para o Crea-MG.
A assessoria de imprensa em meio à tempestade
De repente, o telefone da assessoria não parava de tocar. Repórteres de grandes veículos de comunicação, emissoras de TV, rádios, jornais, todos queriam ouvir um representante do Crea. Os engenheiros envolvidos foram convocados a prestar esclarecimentos, e meu papel, como jornalista à frente da assessoria, era pautar a imprensa, organizar o fluxo de informações e garantir que a instituição se posicionasse de forma clara e responsável. Eu estava lá, no olho do furacão, cumprindo meu dever de esclarecer os jornalistas. Afinal, esse é o papel do assessor: defender e cuidar da imagem da empresa, sim, mas sem cercear o trabalho da imprensa. Pelo contrário, é preciso dar transparência, informar, facilitar o acesso à informação relevante. Foi exatamente para isso que eu informei que a reunião aconteceria, garantindo que a imprensa tivesse acesso aos fatos. Nada de errado nisso, certo? Pelo menos, era o que eu pensava.
O confronto inesperado: A humilhação que virou lição
A tensão era palpável. A sala de reuniões do Crea-MG estava prestes a se tornar o palco de um confronto que marcaria minha carreira para sempre. Eu, uma jovem jornalista, estava no centro de uma crise de repercussão nacional, com a responsabilidade de gerenciar a comunicação em um momento de extrema pressão.
A chegada dos engenheiros e a tensão no ar
Os dois engenheiros envolvidos na polêmica do laudo chegaram ao Crea-MG. A expressão em seus rostos era de fúria e frustração. Eles não ficaram nada felizes ao encontrar um cenário repleto de repórteres com câmeras, microfones e caderninhos, todos ávidos por uma declaração. Ignorando a imprensa e a mim, passaram direto para a sala do presidente. Poucos minutos depois, fui chamada. Eu estava lá, junta e misturada com a imprensa, cumprindo meu papel de esclarecer os jornalistas, de ser a ponte entre a instituição e a sociedade.
O diálogo que marcou: "Você não é a assessora?"
Ao entrar na sala, fui confrontada por um deles, com uma voz carregada de irritação:
— Você é a assessora de imprensa do Crea?
Minha mente, naquele instante, travou. A insegurança que eu carregava, o medo de “ocupar um espaço que não me pertencia”, falou mais alto. A jornalista responsável estava de férias, e eu, embora estivesse respondendo pela assessoria, não era a “titular”. Em vez de simplesmente afirmar a verdade – “Sim, estou respondendo pela assessoria neste momento” –, minha resposta, impensada e imatura, foi:
— Não!
E então, o caos se instalou.
— Então por que você convocou a imprensa? — ele retrucou, a voz ainda mais alta.
Eu, tentando me recompor e defender meu trabalho, respondi:
— Porque é meu papel esclarecer os jornalistas sobre o que está acontecendo, já que o caso teve repercussão nacional.
— Mas você não é a assessora… — ele insistiu, e a discussão se transformou em um bate-boca acalorado.
O preço de não assumir meu espaço
Aquele momento foi de uma humilhação pública profunda. Eu, uma jovem recém-formada, me vi em uma discussão acalorada com dois homens mais velhos, em uma posição de poder, que me questionavam e desautorizavam na frente de outros colegas e do presidente. O arrependimento de não ter dito “sim” imediatamente, de não ter assumido meu papel com a segurança que a situação exigia, me invadiu. Por um excesso de zelo, para não parecer que estava ocupando o espaço da colega que estava de férias, acabei me apequenando e sendo desrespeitada.
Aquele “Não!” foi a atitude mais imatura da minha carreira. Ele revelou uma insegurança que eu não sabia que era tão latente, uma dificuldade em me posicionar e em assumir a autoridade que me havia sido delegada. Dali em diante, fiz o meu trabalho, mas confesso que fiquei muito apreensiva. A sensação de ter falhado em um momento crítico, de ter permitido que minha própria insegurança me sabotasse, era esmagadora.
Uma noite longa e as reflexões pós-confronto e o caminho para a maturidade
A reunião demorou a começar e a acabar. A tensão na sala era quase palpável, e eu me sentia exausta, não apenas fisicamente, mas emocionalmente. A cada minuto que passava, a cena do confronto se repetia em minha mente, e o arrependimento se aprofundava.
A carona desconfortável e o silêncio cheio de aprendizado
Finalmente, já próximo das 2 da manhã, a reunião terminou e os envolvidos atenderam a imprensa. Eu, com a cabeça latejando e o corpo pesado de cansaço, entrei no carro do Crea com o motorista e aqueles dois engenheiros que, por enquanto, me odiavam. Imagine a cena: eu, exausta, compartilhando o carro com dois senhores que passaram o dia me fulminando com os olhos, que haviam me humilhado publicamente. O silêncio no carro era ensurdecedor, pesado, carregado de ressentimento e constrangimento. Se houvesse um prêmio para a carona mais desconfortável do ano, eu certamente ganharia! Cada quilômetro parecia uma eternidade, e a vontade de voltar algumas horas no tempo e assumir uma postura diferente era quase física. Só depois de deixá-los em suas casas, pude finalmente ir para a minha, com a mente fervilhando de pensamentos e a alma em pedaços.
O peso da inexperiência em um evento grande demais para uma recém-formada
Naquela noite, e nos dias que se seguiram, a reflexão foi inevitável. Eu era recém-formada, com pouca experiência em lidar com crises de tamanha magnitude. O evento do Palace II era grande demais para eu segurar sozinha, e a pressão era imensa. Sim, fiquei insegura, e sim, foi muito chato. A sensação de vulnerabilidade era avassaladora. Mas, em meio à dor e ao arrependimento, uma semente de aprendizado começou a germinar.
O primeiro passo para a transformação: Assumindo a responsabilidade
Aquele episódio, por mais doloroso que tenha sido, se tornou um marco. Foi um aprendizado que trago comigo até hoje. A gente erra, e erra feio às vezes, mas o mais importante é a capacidade de aprender com esses erros, de transformá-los em degraus para o crescimento. Naquele momento, percebi que a insegurança não era um traço de personalidade; era um obstáculo que me impedia de exercer plenamente meu potencial e de ocupar o lugar que me era devido. A partir daquele dia, a decisão de me moldar, de fortalecer minha postura profissional, tornou-se uma prioridade.
A vida, com sua sabedoria peculiar, muitas vezes nos empurra para fora da zona de conforto para que possamos descobrir a força que reside em nós. O episódio do Palace II, por mais traumático que tenha sido, foi o catalisador para uma profunda transformação em minha carreira e em minha forma de me relacionar com o mundo profissional.
A ascensão na carreira: de estagiária a assessora principal
É irônico, mas pouco tempo depois desse episódio, a jornalista titular deixou o Crea-MG, e eu, aquela que havia dito “não” à pergunta sobre ser a assessora, fui convidada a assumir a assessoria de imprensa do Conselho. Aqueles engenheiros que me odiavam não voltaram lá para ficar sabendo disso, mas a vida me deu a oportunidade de provar a mim mesma e à instituição que eu era capaz. Assumi o cargo com uma nova postura, mais consciente da minha responsabilidade e do meu valor. A insegurança ainda existia, claro, mas agora vinha acompanhada de uma determinação férrea de superá-la.
A postura profissional de liderança com confiança e integridade
Aquele incidente me ensinou que ocupar nosso espaço não é uma questão de arrogância, mas de responsabilidade e autoconfiança. Ele me moldou. Eu não era mais aquela menina que se tornou mãe de repente (como contei na história da Marcella) e que se sentia insegura em assumir uma posição. Eu tinha uma postura profissional diferenciada, uma capacidade de argumentação e de defesa de pontos de vista que foram lapidadas na vida real, tanto pelos desafios da maternidade atípica quanto por episódios como o do Crea-MG.
A necessidade de entender tudo para cuidar da Marcella, de questionar, de pesquisar, de me posicionar diante de médicos renomados e experientes, me transformou em uma pessoa que não aceitava respostas superficiais e que buscava a verdade com afinco. Essa mesma perspicácia e determinação se transferiram para minha vida profissional. Eu construí uma carreira pautada no compromisso com as pessoas, na comunicação clara e na busca incessante por soluções, características que nasceram e se fortaleceram ao lado da minha filha e foram cimentadas por experiências como a do Palace II.
A sabedoria adquirida: ocupar o espaço sem medo ou arrogância
Hoje, passadas com quase três décadas dessa história e depois de realizar muitos sonhos profissionais, avalio que ter sido mãe tão jovem, e mãe de uma criança com deficiência, moldou profundamente a minha visão de mundo e a minha postura profissional. E o episódio do Crea-MG foi um dos primeiros grandes testes dessa nova mulher que estava nascendo.
É curioso, mas em mais de 30 anos de carreira, passei por inúmeras empresas e, em nenhuma delas, fiz entrevista de emprego ou qualquer tipo de teste formal. Sempre fui referenciada, indicada por pessoas que gostavam do meu trabalho, que confiavam na minha capacidade e no meu profissionalismo. Soa arrogante, não é mesmo? Mas não é nada disso. É apenas a constatação de muito tempo de estrada, de uma construção sólida baseada em confiança e na capacidade de assumir meu lugar. Tive erros e acertos, como todo mundo, mas é bom ser lembrada mais pelos acertos, em minha opinião.
Eu não ocupo o espaço de ninguém, mas é público que tenho um espírito de liderança bem forte. Então, eu exerço essa liderança. Agora, com segurança, com empatia e, felizmente, sem bate-boca (risos). Aquele momento de insegurança foi um ponto de virada, uma lição que me ensinou que a verdadeira força não está em evitar os erros, mas em aprender com eles e em se levantar mais forte.
Abraçando os desafios e construindo um legado
A jornada profissional é feita de altos e baixos, de momentos de glória e de tropeços. O importante é manter a resiliência e a disposição para aprender. Aquele episódio no Crea-MG, que me marcou tão profundamente, é um testemunho vivo de como a adversidade pode ser a maior professora.
Se eu pudesse voltar no tempo e dar um conselho àquela versão mais jovem de mim mesma, àquela jornalista recém-formada e insegura de 1998, diria com toda a certeza: “Confie em si mesma. Você está exatamente onde deveria estar, fazendo exatamente o que deveria fazer. Seu lugar é aqui, agora. Não se diminua para caber em expectativas alheias ou para evitar um confronto. Sua voz importa, seu trabalho é valioso, e sua presença é necessária. Assuma seu espaço com a convicção de quem sabe o que faz e o porquê faz.”
Essa mensagem não é apenas para o meu eu do passado, mas para todos que estão começando suas carreiras ou enfrentando momentos de dúvida, de insegurança, de medo de não serem “bons o suficiente” ou de “ocupar o espaço de alguém”.
Erros que transformam tropeços em oportunidades
Lembrem-se: os erros não definem você, mas a maneira como você reage a eles, sim. Cada tropeço, cada falha, cada momento de desconforto é uma oportunidade disfarçada. É um convite para a reflexão, para o aprendizado, para o aprimoramento. Não se escondam dos seus erros; abracem-nos como parte essencial do processo de crescimento. Eles são os degraus que nos levam a patamares mais altos de sabedoria e competência.
O poder da resiliência
A resiliência, a capacidade de se adaptar e de se reerguer diante das adversidades, é uma das qualidades mais valiosas que podemos cultivar. Ela nos permite transformar a dor em força, a frustração em motivação, e a insegurança em autoconfiança. Ocupar seu espaço com confiança e integridade não é apenas sobre sucesso profissional; é sobre se tornar um ser humano mais completo, mais consciente do seu valor e do seu propósito.
Afinal, é assim que nos tornamos não apenas profissionais melhores, mas seres humanos mais completos, capazes de liderar com empatia, de inspirar pelo exemplo e de transformar não apenas nossas próprias vidas, mas também as daqueles ao nosso redor. O tempo não volta, mas nos presenteia com a sabedoria para fazer melhor da próxima vez. E é essa sabedoria que nos impulsiona adiante, nos tornando faróis para outros que, talvez, estejam vivendo seus próprios momentos de insegurança e buscando seu lugar ao sol.
E você, que me lê agora, já passou por experiência parecida? Compartilhe seu momento nos comentários. Eu vou adorar saber mais sobre você!