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Amor que alimenta a vida: Memórias vivas de uma conexão profunda

Hoje é um dia comum, uma segunda-feira qualquer, como tantas outras que preenchem o calendário da vida. Não tem aniversário para celebrar, não é feriado para descansar, nada de extraordinário ou diferente à primeira vista. Mas eu acordei com ela fixada em meus pensamentos, com a saudade da minha Marcella pulsando forte no peito. O amor que alimenta a vida, esse sentimento profundo de mãe, às vezes, se manifesta assim, sem explicação lógica, sem rima ou razão.

Em breve, o calendário marcará três anos que ela foi morar no Céu. Talvez essa seja a razão para a intensificação da saudade que sinto agora. É a proximidade desse marco. Mas não sei dizer ao certo. As memórias simplesmente vêm, nos invadem e nos lembram que a intensidade do amor nunca se esgota, apenas se transforma.

Um símbolo do amor que alimenta a vida

Eu já disse outras vezes, em minhas histórias aqui, que moramos em um lugar grande, quase uma chácara, com muito espaço e a bênção de ter muitas árvores. Pois é, uma dessas árvores, que hoje se destaca imponente no nosso quintal, é um abacateiro. E o mais curioso é que ele nasceu caladinho, por conta própria, como um presente inesperado da natureza.

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A gente não o plantou. Deve ser coisa dos passarinhos, que vêm aqui aos montes, trazendo sementes e semeando vida. Aliás, temos outras tantas árvores frutíferas que eles, os pequenos jardineiros alados, ‘plantaram’ pra nós ao longo dos anos. Mas o abacateiro é muito especial.

Ele tem uma história singular que se entrelaça com a minha saudade, um verdadeiro símbolo do amor que alimenta a vida. Meu coração se enche ao vê-lo. Talvez seja porque ele está carregado de abacates lindos, reluzindo ao sol. E uma vitamina de abacate foi a última refeição da minha filha. Uma memória agridoce, mas que reflete a essência do nosso cuidado.

A gastrostomia: Uma decisão de amor pela qualidade de vida

Desde os 15 anos, Marcella passou a se alimentar por sonda. É comum que pessoas na condição dela, com paralisia cerebral severa, desenvolvam com o tempo certa dificuldade de se alimentar normalmente por via oral, a chamada disfagia. O risco é alto: aspirar alimentos ou secreções para o pulmão, o que pode facilmente se transformar em uma grave pneumonia. Fiquei muito, muito triste no início.

Ela não sentiria mais o sabor dos alimentos em sua boca, aquela alegria simples que ela tinha ao comer. Mas percebemos que era um percurso inevitável para garantir seu bem-estar. Ela fez a cirurgia de gastrostomia e passou a se alimentar assim desde então.

O dilema materno: Força e sabedoria na decisão

E aqui eu abro um parêntese, que parece leve falando assim, mas que carregou um peso imenso. Embora desafiador, foi uma decisão muito, muito acertada. Antes da sonda, e até certa idade, ela se alimentava sem nenhum sofrimento aparente.

Amava comer, e eu gostava de ver aquilo, aquele prazer genuíno em cada colherada. Ocorre que, com o tempo, a dificuldade foi ficando mais acentuada. As tosses durante as refeições se tornaram mais frequentes, os engasgos, mais assustadores. E então, ela teve uma primeira pneumonia, aos 13 anos.

Os médicos, naturalmente, sugeriram a sonda. Naquele momento, eu achei radical demais. Minha Marcella havia tido apenas uma única pneumonia, e eu via aquela intervenção como algo drástico demais para uma situação que parecia passageira. Os médicos me alertaram que poderia ocorrer a chamada ‘pneumonia de repetição’, quando muitas aspirações seguidas levam à doença, debilitando o pulmão e colocando a vida em risco. Pensar em seu bem-estar futuro exigiu uma força que eu não sabia possuir.

Intuição e proteção: O amor que alimenta a vida

Eu, movida por uma intuição materna e um desejo de protegê-la de qualquer sofrimento desnecessário, banquei a minha decisão. Tirei minha filha do hospital e disse aos médicos, com uma firmeza que nem eu sabia que possuía, que ela ficaria em casa, e que, se voltasse a ter uma pneumonia, eu retornaria para que ela fizesse a cirurgia.

Eu não fui intransigente; apenas conhecia muito bem a Marcella e sabia o quanto a comida lhe dava prazer, um prazer que eu temia roubar. Era uma comida pastosa, uma sopa batida no liquidificador, sim, mas feita com muito carinho, e ela gostava. Eu queria o melhor para ela, e comer a fazia bem. Mas a gente é sempre um pouco egoísta, e vê-la comer com tanto gosto me fazia bem também, era uma alegria compartilhada, um verdadeiro amor que alimenta a vida em todos os sentidos.

A nova qualidade de vida

Deu tudo certo durante dois anos. A promessa foi cumprida. Marcella não teve pneumonias de repetição, mas a dificuldade de deglutição continuava. Então, como prometido, marquei a cirurgia. Você não pode imaginar a angústia que senti e como meu coração se apertou quando a vi entrando para o bloco cirúrgico.

Mas tudo nessa vida passa e, felizmente, essa apreensão também passou. A cirurgia foi um sucesso, um divisor de águas na vida de Marcella, um marco do amor que alimenta a vida de forma plena.

Ela ficou visivelmente mais forte e mais confortável depois disso, pois se alimentava de forma mais eficaz, e tudo ficava no estômago. Não tinha mais vômitos, nem aquela tosse preocupante que tanto me afligia. E eu me aliviei daquela dor que sentia por ela, pois via o bem que aquilo lhe fazia. Marcella se adaptou tão bem à sonda que os profissionais que cuidavam dela sempre me pediam ajuda. Eles a levavam como exemplo para outras mães em dificuldade de aceitar que seus filhos usassem a sonda.

Duas vezes por semana, ela tomava um Danoninho de chocolate com a fonoaudióloga, aquele sabor que era permitido em pequenas doses para estimular o paladar. E, naquele instante, o mundo de Marcella sorria. Ela nunca mais teve uma pneumonia. Aliás, dos 15 anos (quando ela fez a cirurgia) até os 34, quando ela partiu, nunca mais teve uma gripe sequer. A sonda, aquela “radicalidade” inicial, se tornou sua aliada, garantindo anos de vida com mais saúde e menos sofrimento.

O sabor de um amor que alimenta a vida

Mas essa história, que se desenrola com a saudade, é também sobre abacates. Pois bem, como eu disse, nasceu aqui um abacateiro, que cresceu rápido, um gigante silencioso em nosso quintal. E Marcella era a maior consumidora da fruta.

Com sua dieta pastosa, batida no liquidificador, ela tomava no almoço e no jantar a sopa, completa e nutritiva, e nas demais refeições, vitaminas de frutas, uma explosão de sabores e nutrientes. E, nesta época do ano, eu colhia abacates especialmente para ela, aqueles que estavam no ponto certo, macios e saborosos.

O último ato de amor que alimenta a vida

Naquele sábado de 2022, um dia que se gravou em minha memória com uma dor indescritível, Deus decidiu levá-la de volta pra perto Dele. Foi um dia que começou comum, como tantos outros, repleto de amor. Eu dei o banho na Marcella, com todo o carinho e cuidado de sempre. Troquei sua roupa por uma limpa e confortável. E a alimentei com uma vitamina de abacate que fiz com a fruta que ela tanto amava, colhida no nosso próprio quintal. Era a rotina, o amor em cada gesto.

O telefonema: A força do vínculo inabalável

Deixei-a em casa com meu marido, Fernando, com a certeza de que ela estava segura e bem. Saí para almoçar fora com a Ana, minha filha, um momento de respiro na rotina e que acontecia todos os sábados. Pouco tempo depois, o telefone tocou. Era o Fernando, com a voz embargada, dizendo que ela não estava bem. Meu coração gelou. Corri para casa, chamando o SAMU no caminho, com uma esperança desesperada de que ainda haveria tempo.

O duro encontro: A profundidade de um amor materno

Mas não havia mais tempo. Ela começou a partir ali mesmo, onde eu a deixei, sentadinha no sofá do seu quarto, em seu lugar de conforto, sem que eu pudesse segurar sua mão ou beijar sua testa no último suspiro. Meu marido tentou reanimá-la, com todo o desespero e amor que um pai e um marido podem ter, mas sem sucesso.

É indescritivelmente difícil, quase impossível, lembrar a cena que vi quando cheguei em casa. Ela estava nos braços do Fernando, e ele gritava, chorava, implorava por um milagre que não veio. Até hoje não tenho certeza, mas penso que, quando a entreguei aos socorristas, ela já havia morrido. Eu é que não acreditava, eu é que me recusava a aceitar aquela dura e cruel realidade.

A memória que floresce no pomar: Abacates e o amor que alimenta a vida

Voltando mais uma vez aos abacates. Eu viria para casa logo, para dar a ela o almoço, a sopa nutritiva que a esperava. Não houve tempo. Naquele dia, foi só abacate batido com leite, sua última refeição completa, um último gesto do amor que alimenta a vida. E agora, que o abacateiro está carregado de frutos lindos e saborosos, e ela não está aqui para desfrutá-los, eu fico sem saber o que fazer com aquelas frutas.

Elas parecem estar ali para me lembrar dela o tempo todo, uma presença constante no quintal. Cada abacate que colho é uma lembrança, uma pontada de saudade, mas também a materialização de um afeto que permanece.

A dança da memória: o amor que alimenta a vida em cada ciclo

Comecei este texto de forma despretensiosa, apenas tentando entender porque tenho pensado tanto nela, na minha Marcella, nos últimos dias. E acabei descobrindo que pode ou não ser pelo fato de ver o abacateiro todos os dias, com seus frutos maduros e a lembrança daquela última refeição.

Acho que é aquela coisa do amor, que é uma dança infinita. Ele vai e vem, sem aviso, sem lógica, fazendo com que a gente tenha dias bons, leves, onde a memória é só carinho. E dias nem tão bons assim, onde a saudade aperta, onde o peito dói e a ausência grita. Essa é a complexidade do sentimento materno.

E assim como o abacateiro, a vida também tem seus ciclos: tem o tempo de dar frutos, de abundância, de alegria. E tem o tempo do descanso, da poda, do recolhimento. O abacateiro está carregado, e isso me lembra que a vida continua, que a natureza segue seu curso, mas que a saudade, essa sim, não tem estação.

O amor que transcende

Sigo vivendo a minha vida, dia após dia, com a certeza de que a Marcella está sempre presente, em cada memória, em cada cantinho da casa que ela habitou. E me lembrando do tempo em que ela estava aqui, todos os dias, em todos os momentos, iluminando e desafiando a nossa rotina. E gosto de acreditar, em um ato de fé e de amor, que em dias como hoje, de mais saudade e sensibilidade, ela vem me ver pra me confortar. Pra me lembrar que o amor que alimenta a vida transcende a barreira da vida e da morte.

A essência que permanece: Amor e acolhimento

Se isso for verdade mesmo – e meu coração de mãe clama para que seja –, ela vai gostar de ver o pé de abacate carregado, vibrante de vida, como estava quando ela se foi. Um símbolo da continuidade, da generosidade da natureza, e da nossa conexão que o tempo não pode apagar. O carinho da saudade é profundo, sim, mas o amor que fica é ainda maior. E é esse amor, que a Marcella nos ensinou, que me mantém de pé.

Compartilhe sua saudade e seus símbolos de amor

O amor materno, embora possa ser a mais intensa das dores, não precisa ser vivido na solidão; a partilha dos sentimentos pode ser um bálsamo. Você também tem um símbolo, uma memória que se materializa e te lembra um filho que partiu ou alguém que tenha sido especial pra você? Como você lida com o “vai e vem” da saudade? Compartilhe sua história nos comentários. Juntos, podemos encontrar conforto e força nas nossas memórias tecidas em amor. E pode ter certeza: Eu vou gostar de ler a sua história.

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Luísa Albuquerque
Luísa Albuquerque
10 meses atrás

Sua história é inspiradora. Obrigada por compartilhar a sua experiência de amor que transcende.

Ana Flávia
Ana Flávia
10 meses atrás

Que texto emocionante! Difícil não me identificar. Tenho história de luto. É muito difícil. Você fala com leveza e isso acalma o coração.