Lua, o segredo da felicidade e como meu pet reconfigurou meu coração

Quer saber um segredo para a felicidade? Uma daquelas verdades simples, mas profundas, que a vida nos revela nos momentos mais inesperados? Eu descobri o meu, e ele tem quatro patas, um latido forte e uma personalidade inesquecível. Tenha um pet. Mais especificamente, tenha uma cã, como a minha Lua. Lua chegou sem fazer alarde, sem grandes expectativas, pequenina, ligeira e atenta a cada mínimo movimento, cada cheiro, cada som ao seu redor. Ela é a cachorrinha da família – ou melhor, a cã, porque eu sempre achei que o feminino de cão combina muito mais com “cã” do que com “cadela”. Essa escolha, evidentemente algo bem a meu ver e totalmente alinhado com a minha percepção e meu jeito de ser, já coloca a Lua em um lugar especial no nosso lar e em nossos corações: ela não é apenas um animal de estimação; é uma cã que veio para transformar meu cotidiano, reconfigurar meus dias e me ensinar lições valiosas. Atualmente com quatro anos de pura energia e personalidade, ela chegou em abril de 2021, no auge da pandemia de Covid-19, época em que todos nós vivíamos cada dia com uma intensidade diferente, cheios de incertezas e de uma busca por conexão e alento. Embora ela tenha um jeitão meio bravo, que transparece na maneira de latir forte e de resolver os problemas do dia a dia com uma determinação inabalável, a Lua trouxe uma alegria imensa para a nossa casa, um calor e uma leveza que eram mais do que necessários naqueles tempos sombrios. Quatro anos se passaram desde sua chegada, e é simplesmente impossível imaginar a vida sem ela – mesmo em minhas viagens, quando sinto a sua falta de forma quase física, fica claro o quanto ela faz parte do meu equilíbrio, da minha rotina e do meu bem-estar emocional. Ela é a âncora, a alegria, a bagunça organizada do nosso lar. O domínio do território: personalidade vibrante e convivência desafiadora Moramos num espaço grande, que é um verdadeiro paraíso para a Lua. O quintal é um convite irrecusável para que ela corra à vontade, explorando cada cantinho com a curiosidade e a vivacidade que lhe são peculiares. Cada arbusto, cada flor, cada pedacinho de grama é um mundo a ser descoberto, um cheiro a ser decifrado. E nesse vasto território, ela se sente a verdadeira soberana. Mas a realeza tem seus desafios. Os vizinhos têm gatos, e esses felinos, com sua agilidade e um certo desdém pela propriedade alheia, sempre acabam entrando no nosso quintal pelas árvores. É aí que a Lua, autoproclamada dona absoluta do território, se transforma. Seus olhos brilham, suas orelhas se levantam, e ela se enche de uma energia inesgotável para correr, latir e, de forma veemente, expulsar esses hóspedes indesejados. É uma batalha diária, uma demonstração de força e territorialidade que, para nós, é um verdadeiro espetáculo. Latidos como solução e a dificuldade com o novo É engraçado e, ao mesmo tempo, fascinante ver como ela resolve os próprios dilemas usando o latido como sua principal ferramenta de comunicação. Seja quando o interfone toca e ela anuncia a chegada de alguém com uma série de latidos graves e insistentes, quando chega uma visita e ela se posiciona como guardiã intransigente da casa, ou até mesmo quando alguém se empolga no volume da conversa em casa e ela sente que a paz foi perturbada. Os latidos da Lua são sua forma de expressar um ponto de vista muito claro: “Estou aqui! Eu vi! Eu ouvi!” Ela é o nosso alarme, o nosso porteiro, o nosso termômetro de ambiente. Talvez por conta dessa personalidade tão forte, tão assertiva, e bastante desconfiada, ela ainda tenha dificuldade de se acostumar com pessoas novas. Por exemplo, quando vamos visitar a casa dos meus pais, já começa a latir de novo para todas as pessoas, mesmo que elas já sejam conhecidas e que ela as tenha visto diversas vezes. É um ritual, uma forma de reafirmar sua desconfiança e sua necessidade de testar o terreno. É um comportamento que nos desafia, mas que também nos lembra da complexidade e da riqueza do universo canino. O encanto por trás do “cachorra chata” Para muitas pessoas que não a conhecem profundamente, essa atitude de latir para tudo e todos, de ser tão territorialista, pode ser vista como um comportamento exagerado. “Que cachorra chata!” – já ouvi isso, e não foram poucas as vezes. Para mim, porém, essa visão superficial não diminui em absolutamente nada o charme e a inteligência dela. Pelo contrário! Ela é linda, com aqueles olhos atentos e o pelo macio. É amorosa, apesar do jeitão bravo, e demonstra seu carinho com ‘lambeijos’ e encostadinhas. É brava, sim, uma guardiã fiel e determinada. E também é a mais “pidona” de todas as cãs que já conheci. Basta a gente começar a arrumar a mesa para uma refeição que ela já se aproxima, com aquela discrição que só ela tem, senta pertinho, e lança aquele olhar que, de tão suplicante e intenso, quase nos obriga a dividir um pedacinho do que estamos comendo. É um olhar que derrete qualquer coração, uma estratégia infalível que a coloca no centro das atenções. Essa mistura única de teimosia, bravura e uma doçura irresistível é algo que só faz com que eu a ame cada vez mais. É a complexidade de sua personalidade que a torna tão especial e fascinante. Do medo à conexão incondicional Confesso, e sem qualquer vergonha, que nunca fui fã de cachorros. Desde a infância, mantive uma certa distância, um receio inexplicável em relação a esses animais. Tivemos outras duas em casa antes da Lua: a Tita e a Lala. Ambas eram muito mais mansas, mais tranquilas, mais “comportadas” do que a Lua. No entanto, nunca me aproximei delas do mesmo jeito. Sempre tive aquele receio, quase um medo infantil e irracional, de que, a qualquer momento, viesse alguma mordida, algum movimento brusco que me assustasse. Talvez fosse algum trauma antigo, algo que minha mente
A maternidade atípica e a força de amar o diferente

Ser mãe atípica é uma experiência que, com o tempo, foi se revelando com toda a sua complexidade, um universo de desafios e descobertas que molda a alma e redefine a percepção da vida. É um convite a amar o diferente e aceitar isso. Quando a Marcella nasceu, há 37 anos, o mundo parecia não estar preparado para ela – e nem para mim, que era mãe muito jovem e, de repente, me vi imersa numa realidade que muitos julgavam pesada demais. A sociedade, com suas normas e expectativas, muitas vezes não sabe como acolher o que foge ao padrão, e essa incompreensão inicial pode ser tão desafiadora quanto as próprias condições de saúde. Hoje, apesar de a minha filha morar no céu desde 2022, sigo vivendo cada dia com a certeza de que amar o diferente é, antes de tudo, encarar a vida de um jeito especial, com mais coragem, autenticidade e uma profundidade de amor que transcende qualquer barreira. É uma vivência que ensina que a verdadeira beleza reside na singularidade e que a força se encontra na aceitação do que é único. Uma realidade que inspira a amar o diferente A maternidade, por si só, é um percurso de profunda transformação. No entanto, quando a vida apresenta um filho com necessidades especiais, essa experiência adquire contornos ainda mais intensos e singulares. É um convite a redefinir o que se entende por normalidade e a descobrir uma força interior até então desconhecida, a verdadeira capacidade de amar o diferente. O início de uma nova perspectiva sobre o amor O nascimento de Marcella, há 37 anos, marcou o início de uma nova vida não apenas para ela, mas para toda a família. Naquele tempo, o conhecimento e o suporte para famílias de crianças com deficiência eram muito mais limitados do que são hoje. A falta de informação e a escassez de recursos especializados tornavam a experiência ainda mais solitária e desafiadora. Para uma mãe jovem, como eu, que mal havia começado a trilhar seu próprio caminho na vida adulta, a notícia do diagnóstico de paralisia cerebral severa para a Marcella foi um choque avassalador. Ela não andava, não falava e não enxergava como as outras crianças, mas esses detalhes nunca definiram quem ela era. Marcella sempre foi uma menina linda, com uma alegria contagiante que iluminava qualquer ambiente em que estivesse. Sua presença era um lembrete constante de que a vida se manifesta de inúmeras formas, e que a beleza e a plenitude não estão atreladas a padrões preestabelecidos. Eu nunca vi na deficiência uma barreira, mas sim uma forma singular de viver que nos aproximava de uma verdade maior: a de que cada ser é completo do seu jeito, com suas próprias capacidades e seu próprio brilho. A essência de amar o diferente: Diferença não é desigualdade A mensagem central que Marcella me ensinou, e que se tornou um pilar da minha vida, é que ser diferente não é sinônimo de ser desigual. A deficiência de Marcella não a tornava menos digna de amor, respeito ou felicidade. Pelo contrário, sua condição nos forçou a olhar além das aparências, a desconstruir preconceitos e a valorizar a essência do ser humano. Em um mundo que muitas vezes tenta padronizar e homogeneizar, Marcella era um farol de autenticidade. Sua alegria genuína, sua capacidade de se comunicar através de sorrisos e olhares, e sua resiliência diante dos desafios eram lições diárias de humanidade. Essa perspectiva transformadora me permitiu enxergar a vida com mais profundidade. Compreendi que a verdadeira riqueza está na diversidade e que a beleza reside na aceitação plena de cada indivíduo, com suas particularidades e suas contribuições únicas para o mundo. A deficiência não era um fardo, mas uma característica que, paradoxalmente, abria portas para uma compreensão mais profunda do amor e da vida. Superando olhar e palavras: a coragem de amar o diferente Apesar da beleza e da autenticidade que Marcella irradiava, a vivência da maternidade atípica é frequentemente marcada pelo confronto com o preconceito e a insensibilidade social. Lidar com a incompreensão alheia é um dos maiores desafios, exigindo paciência, resiliência e a capacidade de transformar a dor em oportunidade de educação, fortalecendo a vontade de amar o diferente. Desvendando olhar: a aceitação diante do julgamento No começo, confesso que os olhares curiosos e as perguntas impensadas me desafiavam profundamente. Frases como “tadinha dela”, “tadinha de você” ou mesmo perguntas insensíveis como “ela dorme direito?” e “por que ela precisa fazer fisioterapia se não anda?” eram comuns na minha rotina. Esses comentários, muitas vezes proferidos com uma mistura de pena e curiosidade mórbida, revelavam a dificuldade que as pessoas tinham em enxergar além da diferença física. Elas se perdiam nas próprias limitações para compreender a singularidade do ser humano que a Marcella representava. Aquele tipo de comentário nunca foi sobre a Marcella propriamente; era mais sobre a dificuldade que as pessoas têm de lidar com o que elas não conhecem ou não conseguem entender. O peso desses julgamentos e a constante necessidade de justificar a existência e a rotina de Marcella eram exaustivos. Sentia-me, por vezes, como uma embaixadora de uma causa que deveria ser intrínseca à humanidade: a aceitação da diversidade. Educar e transformar: O compromisso de amar o diferente Com o passar dos anos, fui aprendendo a lidar com esses comentários e, principalmente, a transformar cada situação em uma oportunidade de esclarecer dúvidas e abrir os olhos de quem insistia em ver o “diferente” como algo negativo. Em vez de me fechar ou reagir com raiva, escolhi a via do diálogo e da educação. Cada pergunta insensível se tornava um convite para compartilhar a história de Marcella, para mostrar sua alegria, sua força e a beleza de sua existência. Foi nesse percurso que o termo “mãe atípica” começou a fazer sentido para mim. Eu nunca tinha me identificado com essa expressão, talvez por não querer que a condição de Marcella me defina. Mas hoje vejo que ela engloba não só a experiência de cuidar de
Dialogar para entender: A comunicação que transforma mal-entendidos em oportunidades de conexão

A comunicação eficaz é aquela arte sutil e poderosa de fazer com que as pessoas se entendam de verdade, sem precisar de discursos complicados, palavras rebuscadas ou jargões inacessíveis. Ela não se manifesta apenas em grandes apresentações ou em negociações complexas, mas se revela, principalmente, em momentos simples do dia a dia – como uma conversa sincera que desfaz conflitos, aproxima corações e constrói um clima de respeito e confiança. É a capacidade de ir além da superfície das palavras, de mergulhar nas intenções e nas emoções, e de garantir que a mensagem transmitida seja, de fato, a mensagem recebida. Lembro-me de um episódio ocorrido em uma reunião de trabalho que, à primeira vista, parecia ser apenas mais um encontro rotineiro, mas que acabou se tornando uma lição inesquecível sobre como a forma de abordar uma situação pode mudar completamente o rumo dos acontecimentos. Naquela manhã, nossa equipe se reuniu para discutir o planejamento de um grande projeto que estava prestes a ser lançado. O líder do grupo, empolgado com a ideia e com a visão de futuro, apresentou um conceito novo e audacioso para solucionar um problema recorrente com clientes. No entanto, enquanto ele falava com entusiasmo, percebi que alguns colegas pareciam confusos e até hesitantes; suas expressões misturavam surpresa com um leve receio, um sinal sutil de que a mensagem não estava sendo totalmente absorvida. Entre a teoria e a realidade dos mal-entendidos A comunicação é a base de toda interação humana. No entanto, a teoria da comunicação, por mais que nos ensine sobre emissores, receptores e canais, muitas vezes não consegue capturar a complexidade das nuances humanas, das emoções e das interpretações que permeiam cada troca de palavras. A arte de fazer-se entender além das palavras rebuscadas A comunicação eficaz não reside na eloquência ou no uso de um vocabulário extenso. Pelo contrário, sua força está na clareza, na simplicidade e na capacidade de se conectar com o outro em um nível genuíno. É a arte de transmitir uma ideia de forma que ela seja compreendida exatamente como foi concebida, sem ruídos ou distorções. Essa habilidade se revela em momentos que parecem banais, mas que são cruciais para a construção de relações sólidas. Uma pergunta bem colocada, um gesto de acolhimento, um silêncio respeitoso – tudo isso contribui para um ambiente onde o entendimento mútuo floresce, criando um clima de respeito e confiança que é a base para qualquer colaboração bem-sucedida. Quando a comunicação é eficaz, confrontos diminuem, a colaboração aumenta e as pessoas se sentem mais seguras para expressar suas ideias e preocupações. É um processo que exige atenção, empatia e, acima de tudo, a disposição de ir além do que é dito, buscando compreender o que é sentido e pensado. Quando a mensagem não atinge o alvo Naquela reunião, o líder, com sua paixão e visão, apresentou o projeto com grande entusiasmo. Ele acreditava que sua mensagem era clara e inspiradora. No entanto, a comunicação não é um monólogo; é um diálogo. E, para que o diálogo aconteça, a mensagem precisa ser não apenas emitida, mas também recebida e compreendida. Ao finalizar sua apresentação, sem perceber a tensão silenciosa que pairava no ar, o colega deixou o ambiente com a sensação de missão cumprida. Mas era evidente que algo não havia se comunicado como deveria. A confusão e a hesitação nos rostos dos colegas eram um sinal claro de que a ponte entre o emissor e o receptor não havia sido totalmente construída. Durante o intervalo, um dos membros da equipe se aproximou e, com calma e tato, compartilhou sua percepção: “Eu entendi a proposta de um jeito um pouco diferente do que foi apresentado. Acho que faltaram alguns detalhes que nos ajudariam a visualizar melhor o projeto.” Foi nesse momento que todos nós percebemos que, apesar da empolgação inicial e da genialidade da ideia, a mensagem não tinha sido clara o suficiente para que a equipe se sentisse segura e preparada para os próximos passos. A ausência de um feedback imediato durante a apresentação não significava compreensão, mas sim uma barreira que precisava ser transposta. Humildade, escuta ativa e o poder da clarificação O que aconteceu a seguir mudou completamente a dinâmica daquele encontro e se tornou uma lição valiosa para todos nós. Em vez de surgirem acusações, defensivas ou a criação de um clima negativo, nosso líder, com uma humildade notável, parou um instante, e, com uma voz calma e convidativa, pediu que alguém explicasse exatamente onde havia ficado a dúvida. O gesto transformador de abrir espaço para a dúvida Esse simples gesto de abrir espaço para o diálogo, de reconhecer a possibilidade de que a mensagem não havia sido totalmente compreendida, transformou a situação. A humildade do líder desarmou qualquer potencial conflito e criou um ambiente seguro para que as dúvidas pudessem ser expressas. Um por um, os colegas foram expondo as partes que não ficaram claras – desde a definição dos papéis de cada um na execução do projeto, passando pelos prazos e as metas a serem cumpridas, até as expectativas em relação aos resultados. Não houve julgamento, apenas a busca genuína por clareza. Essa atitude do líder foi crucial. Ela demonstrou que a comunicação não é um processo unilateral, mas uma via de mão dupla, onde a responsabilidade pelo entendimento é compartilhada. Ao invés de impor sua visão, ele convidou a equipe a ‘co-construir’ o entendimento, validando as preocupações e as necessidades de cada um. A comunicação como via de mão dupla: ouvir é tão essencial quanto falar À medida que a conversa se desenrolava, percebi que a comunicação não se tratava apenas de falar, de emitir informações, mas de ouvir com atenção, de absorver, de processar e de validar o que o outro estava expressando. Cada comentário era acolhido com interesse genuíno, e o líder fez questão de anotar as sugestões e os pontos de melhoria que surgiam, demonstrando que estava realmente engajado em compreender e em ajustar o plano. O ambiente, que no início carregava uma tensão
Como decepções inesperadas nos ensinam a reconstruir a confiança e a ocupar nosso próprio espaço

A jornada da vida é um intrincado labirinto de encontros e despedidas, de laços que se formam e, por vezes, se desfazem. Ao longo de nossos caminhos, cruzamos com inúmeras pessoas que, de uma forma ou de outra, deixam marcas profundas em nossa história. Algumas delas se tornam companheiras fiéis, acompanhando nossos passos por décadas, tecendo-se na própria trama da nossa identidade. Outras, no entanto, surgem apenas para nos ensinar valiosas lições – sobre si mesmas, sobre o mundo e, principalmente, sobre quem somos e o que realmente merecemos. Hoje, quero compartilhar uma reflexão sobre as coisas e as pessoas que, por mais importantes que tenham sido em um determinado momento, precisam, em algum ponto, ser deixadas pelo caminho. Não estou falando aqui de perdas físicas, inevitáveis e dolorosas, mas de renúncias internas, da necessidade, em certos momentos, de colocar um ponto final em relações que, por mais que tenham sido significativas, já não contribuem para o nosso bem-estar, para o nosso crescimento ou para a nossa paz interior. É um ato de coragem, um exercício de amor próprio que, embora doloroso, é fundamental para a nossa evolução. A complexidade das relações humanas: entre a ilusão da eternidade e a realidade da impermanência Desde a infância, somos ensinados a valorizar a permanência, a acreditar na eternidade das amizades e na inquebrantável solidez dos laços familiares. Crescemos com a ideia de que certas pessoas estarão sempre ali, como pilares inabaláveis em nossa existência. Essa crença, embora reconfortante, muitas vezes nos impede de enxergar a fluidez inerente às relações humanas e a inevitável impermanência de tudo o que nos cerca. A vida, em sua constante mutação, nos mostra que nem tudo o que vivemos pôde ou podia permanecer, e que a capacidade de soltar é tão vital quanto a de acolher. Marcas que permanecem e marcas que se dissipam Há pessoas que caminharam conosco por quase uma vida, compartilhando momentos, histórias, alegrias e até as mais profundas dificuldades. Já falei sobre isso aqui. São amizades e relacionamentos que parecem eternos, construídos sobre pilares de cumplicidade e afeto. No entanto, a experiência nos ensina que, por vezes, esses laços, que pareciam indestrutíveis, se mostram frágeis, como a ilusão de que tudo pode durar para sempre. Algumas marcas são tão profundas que se tornam parte de quem somos, moldando nossa personalidade e nossa visão de mundo. Outras, por sua vez, se dissipam como a névoa ao amanhecer, deixando apenas um rastro tênue de lembranças, um eco distante de um tempo que já não existe. A sabedoria reside em discernir quais marcas nutrir e quais permitir que se desvaneçam, abrindo espaço para novas experiências e novos aprendizados. A ilusão da eternidade e a realidade da impermanência Quando a confiança se quebra – e a traição se instala de maneira inesperada – o coração, mesmo o mais resistente, sente que é hora de mudar de rota. Não se trata de nutrir rancor ou de apagar com mágoa todos os momentos vividos, pois o passado, com suas alegrias e tristezas, é parte inalienável da nossa história. Trata-se, sim, de reconhecer, com uma mistura de tristeza e gratidão, que chegou a hora de seguir em frente. É um ato de aceitação da impermanência, de compreender que nem todos os relacionamentos são destinados a durar para sempre, e que isso não precisa ser motivo de tristeza profunda, mas sim um convite à reflexão sobre o que realmente importa para a nossa paz e integridade. A vida é feita de encontros e despedidas, de momentos que se somam e outros que se dissipam, e reconhecer isso é um passo fundamental para que possamos aprender a valorizar o que ficou e aceitar o que se vai. A quebra da confiança: O ponto de virada que exige coragem Há uma sensação que nos invade, um frio na espinha, quando percebemos que certas pessoas, mesmo as que sempre tiveram um papel central na nossa história, deixaram de ser o que precisávamos para continuar crescendo. Lembro-me de como, quando criança, acreditávamos na eternidade das amizades e na permanência de quem amávamos. Contudo, a experiência nos ensina que, por mais importantes que certas relações sejam, elas também podem se tornar uma carga pesada, um eco constante de decepções que, com o tempo, vai nos impedindo de viver plenamente o presente e de construir um futuro saudável. A dor da traição inesperada Hoje, eu me encontro diante de uma escolha que, embora dolorosa, é inevitável. Uma pessoa que esteve ao meu lado por tanto tempo – alguém com quem compartilhei quase toda a minha vida, desde a infância até a idade adulta – precisou ser deixada para trás. Essa decisão não foi tomada de forma impulsiva ou movida pelo desejo de vingança, mas sim com uma lucidez que só os anos de convivência podem proporcionar. Lembro-me de tantos momentos felizes, das tardes em que rimos juntas, das conversas longas e das confidências trocadas tempos atrás. Cada um desses instantes construiu uma história rica e complexa, que hoje carrego com carinho, mesmo que a traição tenha abrandado o brilho de alguns deles. A dor da decepção é única, pois não é apenas a perda da pessoa, mas a perda da imagem que tínhamos dela, a quebra de um ideal. O reconhecimento da necessidade de mudar de rota Quando a verdade veio à tona, como um relâmpago em meio à calmaria, percebi que a confiança, esse alicerce tão fundamental das relações, havia sido irremediavelmente abalada. Não se tratava apenas de uma mentira isolada, mas de uma quebra profunda que ressoa através do tempo, fazendo-me entender que, por mais que o passado seja precioso e as memórias, doces, o presente e o futuro exigem integridade, honestidade e, acima de tudo, respeito mútuo. Aquele momento de revelação foi um ponto de virada, um sinal claro de que a rota precisava ser alterada, por mais difícil que fosse o novo caminho. O eco das decepções e o impedimento do crescimento Manter-se em uma relação onde a confiança foi quebrada é
Entre águas e memórias: como os rios da minha infância moldaram quem eu sou

Há um cheiro que nunca saiu de mim, uma fragrância que se entranhou na minha alma e que, mesmo a anos-luz de distância, ainda me transporta para um tempo e um lugar muito especiais. É uma mistura inconfundível de terra molhada depois da chuva, da brisa fresca de eucalipto que chegava com o vento, anunciando o início de um novo dia, e daquele aroma doce e inebriante das águas do rio Fanado. Essa sinfonia olfativa marcou profundamente a minha infância e a de todos que tiveram o privilégio de crescer em Minas Novas, a cidade que, embora não fosse meu berço, eu tomei como minha. Quando eu e minha família nos mudamos para lá, eu tinha apenas seis anos de idade, e foi ali que, em meio a brincadeiras e descobertas, logo percebi que rios não são apenas massas de água que correm para o mar — são histórias vivas, veias pulsantes de uma terra que nos fazem nadar na memória, em um fluxo contínuo de lembranças e aprendizados. O cheiro e a essência da infância no interior A memória é um rio que corre por dentro de nós, e a minha, em particular, é inundada por sensações que se recusam a desaparecer. O cheiro da terra molhada, um perfume terroso e revitalizante que anunciava o fim de uma tempestade e a promessa de um ar mais puro. A brisa de eucalipto, que trazia consigo a frescura das matas e a sensação de um novo começo, um convite para despertar e viver o dia com intensidade. E, acima de tudo, o aroma doce e inconfundível das águas do rio Fanado, um cheiro que era a própria essência da liberdade, da aventura e da inocência. O perfume da liberdade e da descoberta Esse cheiro, essa mistura única, não era apenas um conjunto de aromas; era a própria atmosfera da minha infância. Ele se infiltrava nas roupas, nos cabelos, na pele, e, mais importante, na alma. Era o perfume da liberdade de correr descalça, da descoberta de pequenos tesouros nas margens do rio, da alegria de viver sem as amarras do tempo e das preocupações. Cada inalação era um convite para explorar, para brincar, para simplesmente ser criança em sua forma mais pura e desimpedida. O cenário de um tempo inesquecível Minas Novas, para mim, não era apenas um ponto no mapa; era um universo. Uma cidade do interior de Minas Gerais que se tornou o palco das minhas primeiras grandes aventuras, dos meus primeiros mergulhos na vida. Foi ali que aprendi que a natureza é a maior das professoras, e que a felicidade pode ser encontrada nas coisas mais simples: uma pedra colorida, uma piaba fugindo dos pés, o calor do sol na pele depois de um banho de rio. A cidade, com suas ruas de terra e seu ritmo tranquilo, era o contraponto perfeito para a efervescência da minha alma infantil, sempre em busca de novas emoções e descobertas. Os guardiões correntes: dois rios, duas histórias Minas Novas tinha dois rios que, em minha memória, brigavam por nossa atenção, cada um com sua personalidade e seu papel em nossas vidas. O Fanado e o Bom Sucesso. Eles ainda existem, claro, mas não como antes, não como a minha memória os registrou, com a pureza e a vitalidade daquele tempo. Para nós, crianças, eles eram mais do que cursos d’água; eram personagens, cenários de incontáveis histórias e aventuras. O parque de diversões diário e o berço da inocência O Fanado era nosso parque de diversões diário, nosso quintal aquático. Suas águas eram quase sempre rasas, convidativas, permitindo que víssemos as pedrinhas coloridas no fundo, brilhando sob o sol, e as piabas, pequenos peixes ágeis, fugindo dos nossos pés descalços com uma velocidade surpreendente. Era um rio amigo, seguro, onde podíamos brincar sem grandes preocupações, sob o olhar atento, mas distante, dos adultos. Ali, aprendemos a nadar, a mergulhar, a construir pequenas barragens de pedra, a sentir a textura da areia entre os dedos e a liberdade de um corpo em movimento na água. O Fanado era o berço da nossa inocência, o palco das nossas primeiras grandes aventuras aquáticas, onde o riso era a trilha sonora constante. O mistério, o perigo e o poço do Encontro O Bom Sucesso, por outro lado, era mais sério, mais imponente. Os adultos diziam que era perigoso, e sempre havia histórias, sussurradas com um tom de advertência, de gente que se afogou por lá. Era o rio do mistério, do respeito, da curiosidade velada. Mesmo com a aura de perigo, existia um lugar mágico que nos fascinava: o Poço do Encontro. Era ali que as águas dos dois rios se misturavam, em um abraço líquido que levava consigo um pedacinho do que cada um de nós vivia naqueles momentos divertidos. O Poço do Encontro era o ponto de convergência, não apenas das águas, mas das nossas fantasias e dos nossos desejos de aventura. Era o lugar onde o proibido se tornava irresistível, e onde a imaginação voava mais alto. O ritmo da infância: Dias de brincadeira e liberdade à beira do rio Naquela época, ninguém precisava de relógio. O tempo era ditado pelo sol, pela fome e pelos chamados das mães. Sabíamos que o dia estava acabando quando o sol começava a bater nas pedras mais altas do rio, pintando-as de dourado e laranja, ou quando chegava a notícia de alguma mãe chamando pelo filho, um sinal inconfundível de que a brincadeira estava prestes a terminar. São muitas as cenas que me vêm agora, vívidas e cheias de vida, como se tivessem acontecido ontem. Futebol, boias e competições infantis Lembro-me do futebol dos meninos na prainha, debaixo da ponte, onde a areia fofa e a água rasa se tornavam um campo de batalha improvisado, com gritos de gol e disputas acirradas. E a descida até o “Encontro” em uma grande boia – uma câmara de ar de algum caminhão, inflada e robusta – que abrigava várias crianças, entre risos e cutucões em busca de
Como o feedback negativo pode transformar relações

Imagina esta cena: você está numa cafeteria, pede um capuccino com canela extra e recebe um café simples, sem canela, e morno. Você reclama educadamente com o garçom e ele responde: “Ah, mas o dia tá quente! Café morno é refrescante.” Pronto: ali nasce um cliente frustrado que nunca mais volta (e ainda conta a história para todo mundo no Instagram). Essa pequena interação, aparentemente trivial, ilustra de forma contundente o poder do feedback e, mais importante, a forma como ele é recebido e gerenciado. Em um mundo onde a comunicação é instantânea e as experiências são compartilhadas em tempo real, a maneira como lidamos com as críticas e sugestões se tornou um diferencial competitivo e um pilar fundamental para a construção de relações duradouras, sejam elas comerciais, profissionais ou pessoais. O feedback como oxigênio para conexões duradouras Se tem algo que aprendi em mais de 30 anos de comunicação é que feedback negativo não é um ataque pessoal — é uma oportunidade de ouro para criar conexões mais profundas e até fidelizar pessoas. Mas como fazer isso sem parecer robótico ou defensivo? A chave reside em compreender a natureza do feedback e seu papel vital em qualquer interação humana. Feedback é como oxigênio para qualquer relação — seja com clientes, colegas, colaboradores ou até familiares (sim, aquela tia que critica seu “jeito moderno” de criar os filhos também está te dando feedback, mal dado, mas está). Sem ele, as relações definham, a comunicação se torna unilateral e o crescimento, seja ele pessoal ou organizacional, estagna. A comunicação que conecta além das palavras A comunicação, em sua essência, é a troca de informações, ideias e sentimentos. No entanto, ela vai muito além das palavras pronunciadas ou escritas. A linguagem corporal, o tom de voz, o contexto e, fundamentalmente, o feedback, são elementos que moldam a forma como as mensagens são recebidas e interpretadas. O feedback, nesse sentido, é a resposta, a validação ou a correção que permite que a comunicação seja um processo de mão dupla, dinâmico e evolutivo. Ele é o mecanismo que nos permite ajustar o curso, refinar a mensagem e garantir que a intenção original seja compreendida. Em um ambiente profissional, por exemplo, um gestor que oferece feedback construtivo a um colaborador não está apenas apontando um erro, mas investindo no desenvolvimento daquela pessoa e na melhoria contínua da equipe. Da mesma forma, um cliente que se manifesta sobre um produto ou serviço está oferecendo dados valiosos para aprimoramento. Feedback positivo e negativo: entendendo as duas faces O feedback se manifesta em duas grandes categorias: positivo e negativo. O lado brilhante: Elogios são fáceis de lidar (“Seu atendimento me deixou mais feliz que chocolate no domingo!”). Eles alimentam nossa autoestima, reforçam comportamentos desejáveis e criam laços positivos. Receber um elogio é gratificante, valida nosso esforço e nos encoraja a continuar no caminho certo. Empresas que incentivam uma cultura de reconhecimento e celebração de sucessos tendem a ter equipes mais engajadas e produtivas. No entanto, focar apenas no feedback positivo seria ignorar uma parte crucial do aprendizado e do crescimento. O lado sombrio: Críticas e reclamações são como espinhos — machucam na hora, geram desconforto e podem até despertar uma reação defensiva. Ninguém gosta de receber críticas, nosso cérebro as processa como ameaças (sim, é biológico!). Essa reação instintiva é uma herança evolutiva, onde a crítica poderia significar exclusão do grupo e, consequentemente, risco à sobrevivência. Por isso, lidar com o feedback negativo exige uma inteligência emocional e uma perspectiva diferente. Mas aqui mora o segredo: esses “espinhos” podem virar buquês se soubermos podá-los direito. O feedback negativo, quando bem gerenciado, é um catalisador para a melhoria, um sinal de alerta que indica onde precisamos ajustar, aprender e evoluir. Ele aponta falhas, lacunas e oportunidades de aprimoramento que, de outra forma, poderiam passar despercebidas. O poder da reclamação para fidelizar clientes e fortalecer laços Um dado curioso e extremamente relevante para o mundo dos negócios: um estudo da Harvard Business Review mostrou que empresas que respondem bem às reclamações têm até 70% mais chance de reter clientes. Ou seja: quem escuta com empatia não só resolve problemas como ganha fãs fiéis! Isso porque a forma como uma empresa lida com uma falha ou um erro é, muitas vezes, mais determinante para a lealdade do cliente do que a ausência de problemas. Um cliente que teve um problema resolvido de forma satisfatória e empática sente-se valorizado, compreendido e, consequentemente, mais conectado à marca. Essa experiência positiva em meio a uma situação adversa pode transformar um cliente insatisfeito em um defensor da marca, alguém que não apenas retorna, mas também compartilha sua experiência positiva com outros. O feedback negativo, nesse contexto, é um presente disfarçado, uma oportunidade de ouro para demonstrar excelência no atendimento e construir uma reputação sólida baseada na confiança e na responsabilidade. Armadilhas comuns: evitando erros na gestão de críticas A verdade é que ninguém gosta de receber críticas — nosso cérebro as processa como ameaças, como já mencionamos. Por isso, muitos profissionais e empresas, impulsionados por essa reação biológica e pela falta de preparo, cometem erros clássicos ao lidar com reclamações. Esses erros, embora compreensíveis, podem ter consequências devastadoras para a reputação, a lealdade do cliente e o ambiente interno de uma organização. Por que dói receber feedback negativo? A aversão ao feedback negativo não é apenas uma questão de ego; ela tem raízes profundas em nossa psicologia. Quando somos criticados, nosso cérebro ativa as mesmas regiões associadas à dor física. Isso explica por que a primeira reação de muitos é a defensiva, a negação ou até mesmo a agressão. O medo de falhar, o desejo de ser aceito e a busca por validação são fatores que contribuem para essa dificuldade em processar críticas de forma construtiva. Em ambientes profissionais, a crítica pode ser percebida como uma ameaça à segurança no emprego, à progressão na carreira ou à imagem pessoal. Compreender essa reação humana é o primeiro passo para desenvolver a resiliência e a capacidade
Os fios invisíveis do amor e um legado de família que a memória não apaga

Depois de adulta passei a nutrir a convicção de que os laços de família podem ir além das conexões de sangue ou dos sobrenomes compartilhados. Eles são, na verdade, aqueles fios invisíveis, mas incrivelmente resistentes, que nos unem de forma inexplicável. São a teia de suporte, a rede de segurança que nos pega nos momentos de queda e nos impulsiona nos momentos de glória. Essa verdade tornou-se palpável e vívida através da história e da vida de Dona Helena. Ela não é minha avó por laços biológicos, mas bem que poderia ser. É a avó de uma grande amiga minha, e eu tive a sorte, a imensa sorte, de ser acolhida em sua família como se fosse parte dela, uma filha, uma neta, um membro querido que sempre encontrava um lugar à mesa e no coração. Santuário dos almoços de domingo Dona Helena é o tipo de pessoa que, por onde passa, irradia calor humano e generosidade. Sua presença é como um abraço quente em um dia frio, um convite silencioso ao aconchego e à partilha. Aos domingos, sua casa, estrategicamente posicionada em um lugar que parecia feito para acolher, transformava-se em um verdadeiro refúgio de alegria, confraternização e uma energia contagiante. Era o ponto de encontro de uma tribo unida pelo amor e pela tradição. A tradição inegociável era que todos os filhos, netos e até amigos – como eu, que não tinha o laço de sangue, mas era tão parte quanto qualquer outro – se reunissem para o almoço. Imagine uma mesa farta, tão extensa que parecia se estender para além dos limites da cozinha, coberta por toalhas de renda e travessas fumegantes. Não eram apenas pratos típicos; era um banquete de sabores que nos faziam sentir em casa só pelo aroma que pairava no ar: o cheiro de tempero caseiro, de carne assada, de feijão fresquinho, de bolos recém-saídos do forno. A comida, preparada com carinho e sabedoria de gerações, era um convite à celebração da vida. Mas, mais do que a comida, era o ambiente, a atmosfera vibrante de risadas, conversas cruzadas e o afeto genuíno que nos fazia querer estar ali, a cada domingo (eu, sempre que podia), sem falta, como se fosse um ritual sagrado. Histórias, risadas e lágrimas: o nutrimento da alma e a reafirmação dos laços Esses almoços eram ocasiões para compartilhar histórias de infância, de adolescência, de desafios e de vitórias. Eram momentos para risadas que ecoavam pelas paredes da casa, um som que, por si só, já era um remédio para a alma. E, às vezes, também para lágrimas, aquelas que vêm quando a saudade aperta, quando uma lembrança evoca um sentimento mais profundo, ou quando a vida apresentava seus infortúnios. Uma vez, estávamos todos ali, envoltos nessa bolha de familiaridade e afeto, e houve uma conversa nostálgica sobre como as coisas haviam mudado ao longo dos anos, sobre as transformações que a vida havia imposto a cada um. As fotos antigas passavam de mão em mão, desbotadas pelo tempo, mas vívidas em seu poder de evocação. Cada imagem era uma janela para memórias preciosas, um portal para o passado que se misturava com o presente. As vozes se sobrepunham, cada um adicionando um detalhe, uma anedota, um sentimento àquela história coletiva. Esse tipo de partilha, de mergulho nas raízes e na jornada de cada um, fortalece os laços de uma maneira que é difícil de descrever com palavras, mas incrivelmente fácil de sentir, de experienciar. Era o cimento que unia aquela família, tornando-a inquebrável. A força da união diante da adversidade A verdadeira medida de uma família, como em qualquer estrutura forte, é testada não nos momentos de bonança, mas nas tempestades. E a família de Dona Helena enfrentou uma dessas tempestades com uma união e uma coragem admiráveis. Uma das experiências mais marcantes que vivi com eles, que solidificou ainda mais minha admiração por aquela senhora e por todos ali, foi durante uma crise que abalou a todos. Seu neto, João, um jovem cheio de vida e projetos, sofreu um grave acidente de carro que o deixou hospitalizado por longos e angustiantes meses. A teia de solidariedade com visitas, tarefas e o amor que transcende Foi um período de incertezas, de medos constantes e de desafios imensos, não só para João, mas para cada membro daquela família. No entanto, foi também um período de uma união e uma força inspiradoras. Fiquei impressionada, e sinceramente comovida, ao ver como cada membro da família se prontificou a ajudar. Ninguém precisou pedir ou organizar; a ajuda brotava espontaneamente, com sincronia, todos se organizaram. Revezavam-se nas visitas ao hospital, garantindo que o garoto nunca estivesse sozinho. Essa tarefa, que parece simples, era um sacrifício de horas de sono, de trabalho, de rotina pessoal, mas era feita com um sorriso e uma palavra de encorajamento. Organizavam as tarefas do dia a dia, cuidando da casa, das refeições para os pais de João, das responsabilidades que, em momentos de crise, geralmente passam despercebidas, mas são cruciais para a manutenção do mínimo de normalidade. Era uma teia de solidariedade que se tecia a cada gesto, a cada presença, a cada palavra de conforto. O apoio à família de João não veio apenas da obrigação ou do dever; veio de um amor genuíno e de uma solidariedade que transcendiam qualquer dificuldade ou cansaço. Ver a maneira como eles se uniram, como cada um se entregou à causa do outro, me ensinou muito sobre a verdadeira força dos laços familiares. Não se tratava apenas de um apoio prático, mas de uma nutrição emocional que fortalecia a todos. A matriarca que alimentava o corpo e a alma E no centro de tudo, mantendo a chama da esperança acesa, estava Dona Helena. Mesmo nos momentos de maior preocupação, com o coração apertado pela dor do neto, ela não deixava de preparar o almoço de domingo. A cozinha continuava a ser o seu santuário, e o cheiro da comida, um convite à vida. Ela dizia, com sua voz suave,
O corpo fala: Desvendando a linguagem não verbal

A comunicação é uma habilidade fascinante e multifacetada que vai muito além das palavras que falamos. Ela é um universo vasto, onde cada gesto, olhar, postura e até mesmo o silêncio carregam significados profundos. Entre os aspectos mais intrigantes e, muitas vezes, subestimados, está a linguagem corporal, também conhecida como comunicação não verbal. Ela desempenha um papel absolutamente crucial em todas as nossas interações humanas, seja no ambiente profissional, nas relações pessoais ou até mesmo em momentos de introspecção. Pense por um instante: quantas vezes você já “sentiu” o que alguém queria dizer, mesmo antes de a pessoa abrir a boca? Ou percebeu uma incongruência entre as palavras ditas e a expressão facial de alguém? Isso é a linguagem corporal em ação. É a expressão do nosso ser interior através do físico, um fluxo constante de pistas que revelam emoções, intenções, atitudes e até mesmo traços de personalidade. Somos constantemente envolvidos por esses sinais silenciosos. Um sorriso genuíno que expressa simpatia e acolhimento. Pode ser um cruzar de braços que pode gritar desconforto ou fechamento, ou até mesmo um silêncio que, por incrível que pareça, pode ser ensurdecedor de tanta informação que transmite. Comunicação do corpo A linguagem corporal é, em sua essência, a forma como nosso corpo se comunica sem o uso da fala. Ela abrange uma vasta gama de elementos, incluindo gestos, expressões faciais, postura, contato visual, o uso do espaço pessoal (proxêmica) e até mesmo o toque (háptica). Compreender essa linguagem é como ter acesso a um dicionário universal de emoções e intenções, permitindo-nos não apenas decifrar o que os outros estão realmente sentindo ou pensando, mas também aprimorar a forma como nos apresentamos ao mundo. É uma ferramenta poderosa para construir rapport, estabelecer confiança e garantir que a mensagem que desejamos transmitir seja recebida com a clareza e o impacto desejados. Um estudo clássico e frequentemente citado, conduzido pelo pesquisador Albert Mehrabian, em conjunto com Morton Wiener e Susan Ferris na Universidade da Califórnia, em 1967, trouxe uma visão reveladora sobre os componentes da comunicação. Segundo Mehrabian, na transmissão de emoções e atitudes, a comunicação é composta por 7% de palavras, 38% de tom de voz e impressionantes 55% de linguagem corporal. É crucial, no entanto, desmistificar a interpretação mais comum e, muitas vezes, equivocada desse estudo. A “regra 7-38-55” é frequentemente citada fora de seu contexto original, levando à crença de que as palavras são quase irrelevantes em qualquer tipo de comunicação. Mehrabian, na verdade, focou sua pesquisa na comunicação de sentimentos e atitudes, ou seja, quando há uma incongruência entre o que é dito (palavras), como é dito (tom de voz) e a expressão física (linguagem corporal). Por exemplo, se alguém diz “Estou bem” com uma voz trêmula e ombros caídos, a linguagem corporal e o tom de voz prevalecem sobre as palavras para transmitir a verdadeira emoção de tristeza ou desconforto. O verdadeiro valor do estudo reside em sua capacidade de nos alertar para a vasta e muitas vezes subestimada influência que a comunicação não verbal pode ter, especialmente quando se trata de expressar emoções e construir conexões. Ele nos lembra que, embora as palavras sejam essenciais para transmitir informações e fatos, a linguagem corporal e o tom de voz são os veículos primários para a empatia, a confiança e a autenticidade nas interações humanas. Ignorar esses 93% da comunicação emocional é perder uma parte significativa da riqueza e da complexidade das nossas trocas diárias. Os pilares da expressão corporal Para realmente desvendar a linguagem corporal, é fundamental entender seus diversos componentes. Cada um desses “pilares” contribui para a mensagem geral que nosso corpo transmite, e a interação entre eles cria a complexidade e a riqueza da comunicação não verbal. Expressões faciais: O espelho da alma O rosto humano é um dos veículos mais expressivos da comunicação não verbal. Nossas expressões faciais são capazes de transmitir uma gama impressionante de emoções em questão de milissegundos. Pesquisas, como as de Paul Ekman, sugerem que existem seis emoções básicas universais – felicidade, tristeza, raiva, medo, surpresa e nojo – cujas expressões faciais são reconhecidas em todas as culturas. Isso significa que um sorriso genuíno de alegria ou uma carranca de raiva são compreendidos globalmente, independentemente do idioma falado. Além das expressões óbvias, existem as microexpressões, que são movimentos faciais involuntários e muito rápidos (durando frações de segundo) que revelam emoções verdadeiras, mesmo quando a pessoa tenta escondê-las. Treinar-se para identificar essas microexpressões pode ser uma ferramenta poderosa para entender o que alguém realmente sente, indo além das palavras ou das expressões “posadas”. No entanto, é importante lembrar que a interpretação deve ser feita com cautela e sempre em conjunto com outros sinais. Ainda que existam expressões universais, as “regras de exibição” culturais podem influenciar como e quando as emoções são expressas. Em algumas culturas, é considerado inadequado mostrar raiva abertamente, enquanto em outras, a demonstração de luto pode ser mais contida. Compreender essas nuances culturais é vital para evitar mal-entendidos e para se comunicar de forma mais eficaz em contextos diversos. Gestos e posturas: O dicionário do corpo Nossos gestos – os movimentos das mãos, braços e cabeça – são como um dicionário silencioso que complementa ou até mesmo substitui as palavras. Existem diferentes tipos de gestos: Emblemas: Gestos que têm um significado verbal direto e podem substituir palavras (ex: o sinal de “OK” com o polegar e o indicador unidos). Ilustradores: Gestos que acompanham e enfatizam a fala (ex: mover as mãos para descrever o tamanho de algo). Reguladores: Gestos que controlam o fluxo da conversa (ex: um aceno de cabeça para indicar que se está ouvindo). Adaptadores: Gestos inconscientes que revelam estados emocionais (ex: roer as unhas, coçar a cabeça). A postura, por sua vez, refere-se à forma como mantemos nosso corpo. Uma postura ereta e aberta pode projetar confiança, receptividade e autoridade, enquanto ombros curvados e uma postura fechada (braços cruzados, pernas cruzadas) podem indicar insegurança, defensiva ou desinteresse. A famosa “power pose”, por exemplo, que envolve posturas expansivas e abertas, tem
Saudade que transforma: O amor que permanece em cada momento

Demorei certo tempo para entender o sentido da expressão “saudade eterna”. É uma expressão corriqueira, que nunca me chamou muita atenção. A vida da gente é repleta de situações comuns, às quais só damos real importância quando experimentamos na própria pele. Foi com a ausência da Marcella que “saudade eterna” ganhou significado para mim, tornando-se, na verdade, uma saudade que transforma. É simples e difícil ao mesmo tempo. Simples porque é literal: aquela saudade que vai me acompanhar para sempre. E difícil porque, para sentir essa saudade, é preciso ter amado profundamente. Esse percurso de compreensão, que se desdobra em cada amanhecer e em cada anoitecer, é um testemunho da profundidade do amor e da complexidade da alma. A ausência física se transforma em uma presença constante no coração, um eco de memórias que se recusa a silenciar. Um sentimento que ganha nova dimensão Demorei certo tempo para entender o sentido da expressão “saudade eterna”. É uma expressão corriqueira, que nunca me chamou muita atenção. A vida da gente é repleta de situações comuns, às quais só damos real importância quando experimentamos na própria pele. Foi com a ausência da Marcella que “saudade eterna” ganhou significado para mim, tornando-se, na verdade, uma saudade que transforma. É simples e difícil ao mesmo tempo. Simples porque é literal: aquela saudade que vai me acompanhar para sempre. E difícil porque, para sentir essa saudade, é preciso ter amado profundamente. Esse percurso de compreensão, que se desdobra em cada amanhecer e em cada anoitecer, é um testemunho da profundidade do amor e da complexidade da alma. A ausência física se transforma em uma presença constante no coração, um eco de memórias que se recusa a silenciar. O amor que permanece: Celebrando a presença nas ausências Passaram-se as festas de fim de ano e o aniversário do meu pai. Foram dias intensos, de muita alegria, com a família toda reunida. É emocionante ver a família junta e, felizmente, nessa época todos nós reunimos, ninguém falta às comemorações. Exceto ela. É quando a saudade mais aperta, mas também quando o amor se faz mais presente. A cadeira vazia à mesa, a ausência de sua risada peculiar, a falta de sua presença única em meio à celebração coletiva. Esses momentos de união familiar, que deveriam ser apenas de pura felicidade, tornam-se também um lembrete pungente da lacuna deixada. Ainda assim, são oportunidades para sentir a saudade que transforma a dor em uma recordação carinhosa. Criei uma perspectiva que me ajuda a compreender que, em razão de sua condição, era natural que a Marcella partisse cedo. Então, desde o início, sempre aceitei essa realidade com uma racionalidade que me protegia. Mas daí a naturalizar a ausência há uma distância enorme, que não sei se quero percorrer. A aceitação da partida não significa a aceitação da ausência como algo comum ou esperado. A saudade nesses momentos de festa não é um sinal de fraqueza, mas de um amor que se recusa a esquecer, que insiste em manter viva a memória de quem partiu. É um lembrete de que, mesmo em meio à alegria, o coração guarda um espaço sagrado para a lembrança e para a saudade que transforma o vazio em plenitude. Compreendendo o amor parental: Além das expectativas sociais A ausência de um filho causa uma dor profunda. É uma inversão da ordem natural da vida, um golpe que atinge a própria essência da existência. Por isso, entendo quando as pessoas me dizem que tenho que seguir em frente, aceitar, deixá-la partir. Essas frases, embora bem-intencionadas, muitas vezes revelam a dificuldade da sociedade em compreender a complexidade e a singularidade do amor parental. A dor incomparável e a inversão da ordem natural da vida trazem um tipo de transformação que poucos conhecem. A perda de um filho é considerada por muitos psicólogos e terapeutas como a dor mais intensa que um ser humano pode experimentar. É uma dor que desafia a lógica, pois os pais esperam ver seus filhos crescerem, prosperarem e, eventualmente, os enterrarem. Quando essa ordem é invertida, o mundo parece virar de cabeça para baixo. Não é apenas a perda de uma vida, mas a perda de um futuro, de sonhos, de expectativas e de uma parte de si mesmo. A dor é física, emocional e espiritual, permeando cada aspecto da vida de quem a vivencia. É uma ferida que nunca cicatriza completamente, mas que, com o tempo, pode se transformar em uma cicatriz que conta uma história de amor e resiliência, evidenciando a saudade que transforma. A verdadeira recuperação: Acolhendo a saudade sem julgamentos A sociedade, em sua tentativa de consolar, muitas vezes impõe expectativas irrealistas sobre o processo de aceitação. Frases como “você tem que seguir em frente”, “ela está em um lugar melhor” ou “deixe-a partir” são comuns, mas podem ser extremamente delicadas para quem as ouve. Eu deixei e estou bem quanto a isso, o que não quer dizer que não penso mais nela, que não sinto uma pontada de carinho quando ela não está presente nas celebrações. A aceitação da partida não significa o esquecimento ou a ausência de dor. O sentimento de perda não é um processo linear com um fim definido, mas um percurso contínuo de adaptação à ausência. Entendo a reação das pessoas, porque dificilmente alguém que não passou e continua passando por uma vivência similar saberá como é. A falta de compreensão social pode levar quem sente essa ausência a se sentir isolado, a esconder sua dor ou a fingir uma recuperação que não é real. É fundamental que a sociedade aprenda a acolher com empatia, sem julgamentos ou imposições de tempo, permitindo que a emoção seja sentida e expressa de forma autêntica. Lições de amor incondicional Marcella está em paz, eu sei. Assim como sei que ela viveu o tempo dela, como tinha que ser. E mesmo sabendo disso, ainda penso nela todos os dias e sinto a falta dela todos os dias. Não dá para explicar, só dá para sentir. A presença dela,
Memórias de família: A história do meu pai aos 94 anos e as lições que atravessam gerações

Desde que me entendo por gente, eu e meus irmãos o chamamos de Paim. Assim mesmo, com “m” no final. Não “Painho”, não “Pai”. É Paim. Não sei dizer ao certo a origem exata desse nome carinhoso, que se tornou uma marca registrada da nossa família. O importante é que virou o nosso jeito, um jeitinho único e cheio de afeto de nos referirmos ao homem que é a nossa rocha, o nosso guia, a nossa inspiração. Este mês, esse nosso Paim completa impressionantes 94 anos de vida. E isso, por si só, é motivo mais do que suficiente para mim, que criei o blog com o desejo de colecionar instantes, finalmente escrever sobre ele. Algo que venho querendo fazer desde o primeiro dia, mas que só agora, com a maturidade e a admiração cada vez mais profunda, sinto que posso tentar colocar em palavras. O paim e a arte de construir um lar: uma vida dedicada à família Paim é a personificação de dedicação. Uma pessoa de valores inegociáveis, que basicamente viveu e vive para a família. Para nós, filhos, netos e bisnetos, a existência dele é a prova viva de que o maior legado que um homem pode deixar não são bens materiais ou grandes fortunas, mas sim o amor, a presença e a construção de um ambiente de acolhimento. Acredito que muito dessa sua entrega e da sua vocação quase que em tempo integral para a paternidade e para o papel de pilar da família tenha raízes profundas em sua própria história. A ausência que gerou uma presença plena O meu avô, pai de Paim, faleceu quando ele ainda era um bebê, uma ausência precoce que, para nós, nunca se manifestou de forma visível como uma lacuna em sua personalidade. Mas, às vezes, penso que essa perda tão marcante e sentida desde os primeiros meses pesou tanto em sua alma que ele, de alguma forma inconsciente, escolheu viver a paternidade de uma maneira plena, preenchendo qualquer vazio que a vida lhe impôs. Ele não queria que seus filhos sentissem o que ele sentiu. E conseguiu. Ele se tornou a figura paterna presente, forte e amorosa que muitos de nós sonhamos em ter. Duas casas, um só coração: o legado de um verdadeiro lar Juntos, ele e minha mãe – a outra metade dessa equação perfeita, a força silenciosa que complementa tudo o que somos – fizeram da nossa casa não apenas um endereço, mas um verdadeiro lar. Um daqueles lugares para onde a gente sempre quer voltar, independentemente de onde a vida nos tenha levado. Somos cinco filhos, todos já passamos dos 50 anos, com nossas próprias famílias e rotinas estabelecidas. E, acreditem, até hoje, quando nos referimos ao imóvel onde eles moram, dizemos com uma naturalidade que só o afeto constrói: “lá em casa”. É uma coisa engraçada, mas muito verdadeira. Sou muito feliz na minha casa, com a família que construí, com meu marido e a minha filha. Mas a casa dos meus pais, o ninho que Paim e minha mãe ergueram, continua sendo a minha também. Um lugar onde me sinto imediatamente bem, completamente à vontade, e sou acolhida com um amor que transcende o tempo. Então, sim, tenho a imensa felicidade e a gratidão de dizer que tenho duas casas: uma que construí, e outra que me construiu. A hospitalidade de Paim e da minha mãe é lendária. Até os dias de hoje, os amigos da família, os vizinhos, qualquer pessoa que passe pela porta é bem recebida por lá, mesmo que a gente, os filhos, não estejamos por perto. A casa é um centro de convívio, um ponto de encontro de gerações. E um dos rituais mais queridos e curiosos ao chegar na “minha casa” é ter que responder imediatamente a uma pegadinha que Paim faz com todo mundo que o visita. Ele pergunta, com aquele brilho nos olhos e um sorriso arteiro: “Quanto é 7, 7, 14 com 10?”. A inocência da pergunta esconde a malandragem do nosso Paim. Eu usei vírgulas aqui para facilitar para você, leitor. Pense bem e deixe sua resposta nos comentários. Será que você vai acertar? É uma forma divertida e muito dele de acolher e de se conectar com as pessoas. O matemático e o contador de histórias: uma mente curiosa e brincalhona Ele trabalhou por anos no Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística, o IBGE. E, de tanto contar gente em recenseamentos que o levaram a conhecer os cantos mais variados do nosso estado, ele pegou um gosto todo especial por operações matemáticas. Não que ele fosse um gênio dos números, mas a lógica e o desafio de desvendar problemas, mesmo que simples, sempre o atraíram. Era ele quem, pacientemente, sentava conosco na mesa da cozinha ou da sala para nos ajudar com as tarefas de casa quando estávamos no ensino fundamental. E, se hoje eu tenho alguma afinidade com números ou com a organização de ideias, parte disso certamente veio das aulas e do incentivo dele. As andanças do recenseador e as histórias que a vida contou Mas Paim não é apenas um homem de números; ele é um contador de histórias nato. E suas histórias, contadas com vivacidade e um brilho nos olhos, são comumente as suas próprias histórias. Ele fala com uma alegria contagiante das muitas cidades e vilarejos que conheceu por causa dos recenseamentos nos quais trabalhou. Ouvir Paim remonta a um tempo de Brasil diferente, de estradas de terra, de comunidades isoladas e de uma simplicidade que hoje parece quase utópica. Ele nos transporta para esses lugares, nos apresenta às figuras excêntricas que conheceu, aos causos engraçados e aos aprendizados de vida colhidos em cada jornada. A vivência como recenseador moldou muito do seu caráter. Ele aprendeu a se relacionar com todo tipo de gente, a observar a vida em suas nuances, a valorizar a diversidade cultural e a ter uma profunda empatia pelas diferentes realidades. E essa empatia se estendeu à sua própria família. O avô